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Redes sociais e democracia

Há alguns meses, muitos administradores de páginas no Facebook reclamaram pela internet que suas páginas estavam começando a levar bem menos visitantes para os seus sites do que de costume. Em alguns casos, as entradas via Facebook teriam caído pela metade, mesmo com a quantidade de curtidas crescendo bastante.

Na época, comentou-se que essa queda no tráfego coincidiu com um novo recurso da rede social chamado “posts promovidos”, através do qual as empresas podem pagar ao Facebook para colocarem o seu conteúdo no feed de notícias de mais usuários.

A coincidência dos eventos fez com que parecesse que o Facebook estivesse artificialmente diminuindo o tráfego das páginas para ganhar dinheiro forçando seus donos a usarem o recurso de posts promovidos para voltarem a ter a quantidade de visitas que tinham anteriormente.

Porém, o Facebook insistiu que não estava fazendo nada do tipo. Ele estaria apenas tentando manter os feeds dos usuários sem tantos posts promocionais (que os usuários não gostariam de ver). Em outras palavras, a empresa de Mark Zuckerberg disse que está do lado dos usuários contra os anunciantes, embora esteja ganhando dinheiro no negócio.

Desculpa esfarrapada

Se o objetivo de fazer os posts de páginas serem menos visualizados era tornar o Facebook com menos posts de empresas e mais de pessoas, por que ao mesmo tempo criaram os posts promovidos? Se a empresa está disposta a investir dinheiro para fazer seu post ser visualizado, então tudo bem incomodar o usuário? E como ficam as páginas que não são de empresas, mas de organizações e comunidades que não têm dinheiro para investir na divulgação de posts?

As contradições foram se acumulando e há cerca de um mês tivemos outra novidade: o Facebook começou a liberar o recurso de promover posts não só mais para páginas (empresas, anunciantes), mas também para usuários “normais” (eu e você). Nos últimos dias, mais e mais usuários no Brasil têm tido acesso ao botão Promote nas suas atualizações de status. As atualizações promovidas certamente tomarão cada vez mais espaço das atualizações que você gostaria realmente de ver na sua rede social. Como fica aquela velha desculpa?

Computação vs. Dinheiro

Em geral, o que decide se o que publicamos no Facebook aparece ou não para cada um dos nossos amigos é um algoritmo chamado EdgeRank (se quiser saber mais, dê uma olhada neste site, em inglês) que avalia basicamente nosso grau de afinidade, a interação de outras pessoas com a publicação e há quanto tempo ela foi feita. Critérios computacionais razoáveis para não encher seu feed com zilhões de atualizações irrelevantes. De fato, estima-se que seus posts cheguem a apenas 12% dos seus amigos.

Com a mudança, criou-se uma variável (nada computacional) a mais aí nesse algoritmo: o dinheiro que o usuário tem e está disposto a pagar para promover sua publicação. A defesa do Facebook baseia-se no fato de que com o algoritmo tradicional pessoas com quem você não interage normalmente poderiam não ficar sabendo de uma notícia importante que você gostaria que todos ficassem sabendo como um casamento ou uma gravidez. A princípio, o argumento parece fazer sentido, mas a interação numa notícia como essas não deveria já aumentar o EdgeRank suficientemente para ela aparecer para todos os seus amigos? Se não aumenta, por que ficar com a solução fácil? Talvez o algoritmo devesse ser repensado. Faz sentido encontrar atualizações de status que não são relevantes para mim simplesmente porque um amigo virtual pagou para me mostrar?

Facebook na contramão da democracia

A lógica dos posts promovidos é a lógica dos anúncios da TV. Em vez de resolver problemas de ranqueamento com inteligência, inventa-se a variável dinheiro. Sua opinião é mais importante simplesmente porque você tem um megafone e os outros não.

O argumento do Facebook não gerou grandes polêmicas porque ele funciona dentro da mesma lógica que estamos acostumados a ver o mundo funcionar. Mas esse modo de pensar não deve parecer natural.

A internet é um meio de comunicação inovador e com potencial revolucionário por causa de suas características descentralizadas e democráticas, completamente opostas aos meios de comunicação que a mídia tradicional utiliza.

Posts promovidos podem parecer pequenos detalhes sem importância. Porém, pensar na utilidade de um recurso como esse na rede social mais utilizada do planeta (que tem cumprido papel tão importante em grandes mobilizações sociais) é muito importante para conhecermos seus limites. O convite a blogar ganha um novo argumento.

TV e café da manhã

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 6 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

(originalmente publicado no Facebook na manhã da quinta-feira 09/02 — horários em UTC-8 — estou copiando pra cá pra registrar)

7:32 — Passou uma propaganda de car title loan aqui na TV que pareceu muito aquela propaganda “Refinancie sua casa” do filme “Capitalismo: uma história de amor” do Michael Moore.

7:39 — A pessoa fala um pouco no jornal e termina com: “Coloquei mais informações na minha página no Facebook.” Além dos Twitters dos editores que fazem comentários no rodapé da tela, várias vezes aparecer o letreiro “Acesse nosso Twitter (ou nossa página no Facebook) pra ver as breaking news.” e tal. Bem interessante. A televisão aqui tá muito voltada pras redes sociais.

7:50 — Rá! Descobri (pela internet) como abrir uma caixa de leite. Da próxima vez nem vou precisar de tesoura :)