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O utente da indústria do transporte (mais Illich)

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 7 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

“Dado o seu impacto geográfico, a indústria do transporte modela, em definitivo, uma nova espécie de homens: os utentes. O utente vive num mundo alheio ao das pessoas dotadas da autonomia dos seus membros. O utente tem consciência da exasperante penúria de tempo provocada pela corrida quotidiana ao comboio, ao automóvel, ao metro, ao ascensor, que o transportam diariamente através dos mesmos canais e túneis num raio de 10 km a 25 km. Conhece os atalhos encontrados pelos privilegiados para escaparem ao exaspero engendrado pela circulação e que os conduzem aonde querem chegar, enquanto ele, o utente, tem que conduzir o seu próprio veículo de um lugar, onde preferiria não viver, para um emprego que preferiria evitar. O utente sabe-se limitado pelos horários dos comboios e autocarros, nas horas em que a sua mulher o priva do automóvel, mas vê os “executivos” deslocarem-se e viajarem pelo mundo quando e como muito bem lhes apetece. Paga o seu automóvel com dinheiro do seu bolso, num mundo onde os privilégios cabem ao pessoal dirigente das grandes firmas, universidades, sindicatos e partidos. Os pobres amarram-se ao seu carro, e os ricos utilizam o automóvel de serviço ou alugam-no à Hertz. O utente exaspera-se com a crescente desigualdade, a escassez de tempo e a sua própria impotência, mas, insensatamente, põe a sua única esperança em mais da mesma coisa: mais circulação por meio de mais transporte. Espera o alívio através de modificações de ordem técnica que hão-de afetar a concepção dos veículos, das estradas ou da regulamentação do trânsito. Ou então espera uma revolução que transfira a propriedade dos veículos para a coletividade e que, por meio de descontos nos salários, mantenha uma rede de transportes gratuitos, cujas seções mais velozes e caras serão outra vez apenas acessíveis àqueles a quem a sociedade considere mais importantes. Quase todos os projetos de reforma dos transportes que se supõem radicais padecem deste prejuízo: esquece-se o custo em tempo humano que resultaria da substituição do atual sistema por outro, mais “público”, se este último for tão rápido como o outro.

À noite o utente sonha com aquilo que os engenheiros lhe sugerem durante o dia através da televisão e das colunas pseudocientíficas dos jornais. Sonha com redes estratificadas de veículos de diferentes velocidades que convergem em interseções onde as pessoas podem encontrar-se nos espaços que lhes são concedidos pelas máquinas. Sonha com os serviços especiais da “Rede de Transportes” que dele se encarregarão definitivamente.

O utente não pode captar a demência inerente ao sistema de circulação baseado principalmente no transporte. A sua percepção da relação do espaço e do tempo tem sido objeto de uma distorção industrial. Perdeu a capacidade de se conceber como outra coisa que não seja um utente. Intoxicado pelo transporte, perdeu consciência dos poderes físicos, sociais e psíquicos de que o homem dispõe, graças aos seus pés. Esquece que o território é o homem que o cria com o seu corpo e toma por território aquilo que não passa de uma paisagem vista através de uma janela por um homem amarrado ao seu banco. Já não sabe marcar o âmbito dos seus domínios com o rasto do seus passos, nem encontrar-se com os vizinhos, passeando na praça. Já não se encontra com outro sem chocar, nem chega sem que um motor o arraste. A sua órbita pontual e diária alheia-o de todo o território livre.

Atravessando-o a pé o homem transforma o espaço geográfico em morada por ele dominada. Dentro de certos limites, a energia que aplica para se movimentar determina a sua mobilidade e a sua capacidade de domínio. A relação para com o espaço do utente de transportes é determinada por uma força física alheia ao seu próprio ser biológico. O motor mediatiza a sua relação com o meio ambiente e depressa o aliena de tal modo que depende do motor para definir o seu poder político. Ele que está condicionado a crer que com eles aumenta a capacidade dos membros de uma sociedade para participarem no processo político.

Nas suas reivindicações políticas o utente já não pede caminhos abertos, mas sim mais veículos que o transportem; quer mais daquilo mesmo que agora o frustra, em vez de pedir a garantia de que, em todos os sentidos, a prioridade caiba sempre ao peão. A libertação do utente consiste na sua compreensão de realidade: enquanto exigir mais energia para propulsionar com mais aceleração alguns indivíduos da sociedade, precipita a corrupção irreversível da equidade, do tempo livre e da autonomia pessoal. O progresso com que sonha não é mais do que a destruição melhor conseguida.”

Ivan Illich, “Energia e Equidade” (dezembro/1973), página 40 na tradução da Editora Sá de Costa (1ª edição, Portugal, 1975)

E com isso vou parar de copiá-lo, antes que copie o livro inteiro, que é excelente. Recomendo a quem se interessar que procure em bibliotecas ou em sebos.

Vai trabalhar, vagabundo!

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 10 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

“Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás.” (Gênesis, 3:19)

Quando você pensa no futuro, o que vem à sua mente? A não ser que você tenha sido criado em outro planeta ou em outros tempos, a sua resposta é: trabalho. É com trabalho que conseguimos dinheiro, pra poder descansar. É uma lógica tão estúpida que não sei como ainda funciona.

Vai trabalhar, vagabundo
Vai trabalhar, criatura
Deus permite a todo mundo
Uma loucura
Passa o domingo em familia
Segunda-feira beleza
Embarca com alegria
Na correnteza

Prepara o teu documento
Carimba o teu coração
Não perde nem um momento
Perde a razão
Pode esquecer a mulata
Pode esquecer o bilhar
Pode apertar a gravata
Vai te enforcar
Vai te entregar
Vai te estragar
Vai trabalhar

Vê se não dorme no ponto
Reúne as economias
Perde os três contos no conto
Da loteria
Passa o domingo no mangue
Segunda-feira vazia
Ganha no banco de sangue
Pra mais um dia

Cuidado com o viaduto
Cuidado com o avião
Não perde mais um minuto
Perde a questão
Tenta pensar no futuro
No escuro tenta pensar
Vai renovar teu seguro
Vai caducar
Vai te entregar
Vai te estragar
Vai trabalhar

Passa o domingo sozinho
Segunda-feira a desgraça
Sem pai nem mãe, sem vizinho
Em plena praça
Vai terminar moribundo
Com um pouco de paciência
No fim da fila do fundo
Da previdência
Parte tranquilo, ó irmão
Descansa na paz de Deus
Deixaste casa e pensão
Só para os teus
A criançada chorando
Tua mulher vai suar
Pra botar outro malandro
No teu lugar
Vai te entregar
Vai te estragar
Vai te enforcar
Vai caducar
Vai trabalhar

(Chico Buarque)

O trabalho do “proletário” como existe hoje surgiu com a Revolução Industrial, no século XVIII. É engraçado que, quando estudamos esse período na escola, todos adoram criticá-lo; parece que faz parte de uma realidade distante e que hoje ninguém é proletário. Ninguém pensa no hoje e na nossa situação, porque todos estão conformados.

Antes do proletariado surgir, existiam outras formas de trabalho, como os artesãos e os escravos. Os artesãos trabalhavam por eles mesmo, não para burgueses. Os escravos trabalhavam para um senhor, mas esse site explica bem a diferença entre o proletário e o escravo:

Como se diferencia o proletário do escravo?

O escravo está vendido de uma vez para sempre; o proletário tem de se vender a si próprio diariamente e hora a hora. O indivíduo escravo, propriedade de um senhor, tem uma existência assegurada, por muito miserável que seja, em virtude do interesse do senhor; o indivíduo proletário – propriedade, por assim dizer, de toda a classe burguesa -, a quem o trabalho só é comprado quando alguém dele precisa, não tem a existência assegurada.

O trabalho não é uma necessidade. Quem não trabalha não é vagabundo. A própria palavra “trabalho” vem de “tripalium” e lembra tortura, sofrimento. A nossa mentalidade é baseada em uma série de conceitos que foram se formando ao longo do tempo e que pouca gente pára pra pensar se estão certos.

Qual é a solução? Um comunismo? Não sei, acho que não, mas também não tenho a resposta. Cada um pode decidir por si só, mas acho que do jeito que tá não é legal. Passamos a vida “escravos” de um sistema por dinheiro. Pensem bem: isso não faz sentido! Tem coisas muito melhores pra se fazer e pra se ter na vida. Às vezes parecemos retroceder em vez de evoluir. No fim, o que é importante?

Ninguém jamais deveria trabalhar. O trabalho é a fonte de quase todos os sofrimentos no mundo. Praticamente qualquer mal que se possa mencionar vem do trabalho ou de se viver num mundo projetado para o trabalho. Para parar de sofrer, precisamos parar de trabalhar.

(Hakim Bay)