Sobre os anônimos que tiraram o site do PSOL do ar

Fui surpreendido hoje à noite pela notícia de que internautas tiraram do ar o site nacional do PSOL por 10 horas. O motivo: #OpImagemLimpa, de algumas pessoas que bizarramente acham que detêm o título de “os únicos anônimos dignos de usarem a máscara do Guy Fawkes”:

Aprendão a não usar a imagem do #Anonymous, não censurem seus usuários – #OpImagemLimpa – Ataques, Defaces e Divulgação de dados de todas as pessoas e grupos que estão usando nossa imagem de má fé! –

Quero fazer algumas poucas considerações breves e, fraternalmente, dar algumas sugestões aos companheiros que participaram dessa operação, na minha opinião, bastante infame.

  1. Anônimos com A maiúsculo surgiram num momento em que o mundo se mobiliza por democracia real: nas praças do mundo árabe onde derrubaram ditaduras, nas ruas da Europa em busca de alternativas para que os trabalhadores não paguem pela crise econômica, na defesa da democratização dos meios de comunicação e da internet ao lado do Wikileaks e de Julian Assange, defendendo que ninguém tire sites arbitrariamente na internet e com uma multidão tirando do ar sites de Visa, Mastercard e Paypal para repudiar essas empresas que apoiaram a tentativa do governo americano de acabar com o Wikileaks.
  2. Anônimos não são um coletivo organizado. Anônimos somos todos nós, que queremos usar a internet sem expôr a nossa identidade, todos nós em movimento e com toda nossa diversidade, todos que juntos nos mobilizamos e vamos pras ruas independente de raça, origem ou religião, e que usamos uma máscara que representa a liberdade — uma máscara que jamais deve ser pretexto para a censura e para o desrespeito. Ninguém é dono do título de anônimo, decide quem é anônimo e quem não é, quem usa a máscara e quem não usa.
  3. O site nacional do PSOL é um site que divulga as lutas populares, dos trabalhadores em greve, das mulheres, do movimento LGBT, as mobilizações em curso do Chile a Grécia, denuncia a tentativa de golpe no Paraguai se contrapondo à mídia tradicional e apresentando alternativas que querem romper com a politicagem naturalizada, como Freixo no Rio. Seja você do PSOL ou não, anônimo ou não, por que derrubar esse site? É esse seu maior inimigo? A que serve derrubar o site do PSOL? Quem sai ganhando quando nos dividimos são os capitalistas, o 1%, que ao fragmentarem os 99% fazem com que nós percamos a noção de que fazemos parte de uma só classe neste sistema e que devemos lutar juntos para superá-lo.
  4. É fácil derrubar um site como o do PSOL. É o site de um partido independente a grandes banqueiros e empresários, que não gasta dinheiro num super datacenter. Realizar um DDoS lá não tem nada de desafiador, de hacker ou de incrível; é só pura falta do que fazer mesmo.

Que tal usarmos a nossa energia para algo útil? Em vez de só ficarmos defendendo uma máscara como se ela tivesse dono (no melhor estilo da indústria do copyright) e congestionando sites arbitrariamente, que tal defendermos a internet livre e democrática, onde todos podemos participar e expôr nossas ideias, como defendeu todo o movimento em torno do Wikileaks que deu origem a Anônimos como substantivo próprio? Contra a retirada do sites do ar, e não a favor.

Que tal criar sites de mídia alternativa (como o Juntos, o Jornalismo B, o blog do Tsavkko e tantos outros), usar a internet para fazer as notícias que o governo e a mídia não querem que cheguem nas pessoas chegarem? Ou ainda que tal defacear os sites da mídia tradicional pra expôr a greve dos professores federais que não é noticiada, as contradições dos governos e da velha política que une PT a Maluf em São Paulo?

São desafios bem maiores que tirar um site como o do PSOL nacional do ar, que precisam de muitos anônimos e não-anônimos unidos para serem colocados em prática e que contribuem muito mais para criarmos um novo sistema econômico e social, com democracia real, igualdade e liberdade para todos. Além de fazerem muito mais justiça ao legado da máscara de Guy Fawkes.

Editado em 24/06 às 13:13 pra adicionar o texto abaixo:

Mas resta uma dúvida: afinal, qual foi o “crime” que motivou esse protesto? Teria o site do PSOL nacional cometido a terrível transgressão de veicular alguma foto com uma máscara preto e branca como essa? Teria alguém comentado em algum lugar da internet com o nome Anônimo reivindicando ou pedindo votos para o PSOL (barbaridade que, cá entre nós, merece a sentença de cortar uma mão fora além de tirar o site do PSOL do ar pra todo o sempre)? É pior que isso, acreditem. Um companheiro de Brasília me escreveu um e-mail pra contar:

O Twitter @PSOLMESDF recomendou um perfil desses anônimos iluminados que acham que são os únicos anônimos da internet num #FollowFriday. A resposta desse Anônimo foi: @PSOLMESDF ta loco??? pq ta me indicando, sou apartidario! vão se foder! e logo em seguida: Galera preciso de uma ajuda, denunciem este perfil @PSOLMESDF , o fdp ta tentando sujar a ideia ‪#anonymous‬. Não é fantástico? Retuitar ou dar follow friday para um desses caras é denegrir a sua imagem e merece protestos. É suficiente para o site de um partido sair do ar por 10 horas.

Bom… Prefiro pensar que as pessoas que participaram dessa operação não sabiam o motivo. O mínimo que alguém decente esperaria seria um pedido de desculpas, mas, caros anônimos (na verdade, uma pequeníssima parte dos anônimos que teve a ver com isso), tudo bem se o orgulho de vocês não permitir isso: Só peço que vocês pensem melhor no que estão fazendo da próxima vez e estejam do lado de quem quer construir uma internet com liberdade e democracia, não uma de censura e arbitrariedades.

(e um abraço a todos que me mandaram mensagens me xingando por eu ter cometido o terrível erro de escrever a verdade: o que vocês fizeram foi um absurdo)

A cultura digital nas lutas sociais

Por todo o planeta, a Internet tem se mostrado cada vez mais importante para as mobilizações.

O desenvolvimento da Internet e de novas formas de comunicação modificou bastante a atuação cultural e política dos jovens no mundo todo.

O funcionamento aberto da rede permitiu ampliar o acesso a informação, compartilhando filmes e músicas de forma gratuita, e facilitando a divulgação de produções artísticas independentes. Se antes um pequeno número de empresas decidia aquilo que faria sucesso, agora as possibilidades se expandiram.

Além disso, a troca de informações e mensagens acontece agora em tempo real, permitindo a divulgação de notícias e fatos entre todo o mundo de forma imediata. Esses fatores abrem uma nova possibilidade também à política. Atualmente, diversos acontecimentos vêm demonstrando as potencialidades da internet para a organização social da juventude e de outros setores.

Internet contra ditaduras

O principal exemplo da atualidade é o Egito, onde três dias depois de eclodir nas ruas uma série de manifestações contra o regime do presidente Hosni Mubarak, toda a mídia internacional noticiou o corte da internet no país. A medida, inédita na história, foi tomada a fim de dificultar a comunicação e evitar a organização de novos protestos, que estavam sendo convocados pela rede. Na mesma semana, o governo chinês censurou a palavra “Egito” nos serviços de microblogs sina.com e sohu.com (equivalentes chineses ao Twitter). Quem buscava informações sobre o país, deparava-se com a mensagem “De acordo com a legislação em vigor, os resultados da sua busca não podem ser retornados”. Esses dois acontecimentos não estão isolados: ultimamente temos presenciado uma série de fatos políticos relacionados com a internet, da retirada da licença Creative Commons do site do Ministério da Cultura até a polêmica prisão do editor-chefe do Wikileaks. Por que tanta preocupação com a rede?

A internet oferece ao ativismo social novas ferramentas de intervenção política como campanhas virtuais, troca de mensagens em tempo real, fóruns e grupos de discussão, boletins, manifestos e abaixo-assinados online, sites e blogs das organizações, portais coletivos e agências de informação alternativa. Essas ferramentas, complementares às assembleias, marchas, atos públicos, materiais gráficos, rádios e televisões comunitárias, fotografia, cinema, arte de rua, etc, possibilitam quase sem custo e a qualquer usuário da rede divulgar suas ideias e conseguir adesões.

Outro exemplo de mobilização através do meio digital se deu nas últimas semanas na cidade de São Paulo. Os atos contra o aumento da tarifa de ônibus reuniram milhares de jovens e grande parte deles compareceu devido à divulgação dos eventos nas redes sociais, como o Twitter e o Facebook. Foi organizado ainda um tuitaço nacional com a palavra de ordem “Quem não tuíta, quer tarifa!”, que ampliou a mobilização pela rede.

Pela democratização da informação

Nesse sentido, devemos aproveitar ao máximo todo o espaço que a internet nos oferece. Porém, a disputa não pode parar por aí. A rede não é apenas uma ferramenta para aumentar a eficácia da comunicação; tampouco é um mecanismo de controle social: a internet é hoje ainda campo de batalha para algumas das lutas mais significativas pelos direitos humanos. Não podemos falar de liberdade de expressão e de direito à informação sem considerarmos as possibilidades que as redes podem oferecer aos cidadãos. Temos que lutar contra a exclusão digital que reproduz as velhas desigualdades que encontramos na sociedade.

Frente a esse alerta, é nossa tarefa também lutar pela apropriação social dessa tecnologia. Precisamos valorizar os espaços onde a produção de conhecimento não está submetida às leis do mercado, proteger seus usuários contra as políticas de controle e de vigilância, combater o uso somente lúdico e superficial do computador e promover uma inclusão digital não voltada para a compra de produtos e serviços de informática, mas à formação de sujeitos políticos e criadores de conteúdo, que participem da construção de uma inteligência coletiva e que busquem a partir dela reverter as relações de poder consolidadas fora da rede.

Publicado originalmente no Juntos.

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