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Boa nova

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 7 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

Resolvi fazer Ciência da Computação há muito tempo. Faz tanto tempo que eu não lembro quando foi, mas acho que eu tinha uns oito anos. Minha única certeza é que eu não fazia ideia do que era o curso (mas isso não importa — hoje acho que escolhi estudar uma das coisas mais legais que existem).

O tempo passou e cogitei fazer outras faculdades, mas nunca seriamente. Começou o 3º ano do Ensino Médio e comparei os currículos de UFSC, UNICAMP, ICMC-USP e IME-USP pra decidir que curso escolher. Ordenei-os (por motivos teóricos) da seguinte forma:

  1. IME-USP
  2. ICMC-USP
  3. IC-UNICAMP (engenharia)
  4. UFSC

Desde lá minha meta foi entrar no lugar onde hoje, felizmente, estou. Mas não foi fácil.

Passei o último ano do Ensino Médio namorando estudando, li os resumos dos livros exigidos e quando chegou novembro… não passei na primeira fase do vestibular da Fuvest.

(Felizmente passei na UFSC e vivi um ano sensacional. Morava do lado da Universidade, fiz grandes amigos, conheci professores do mais alto nível, me classifiquei pra final mundial da Maratona de Programação e aprendi mais Matemática do que em toda a vida. Mas nem todos têm a mesma sorte.)

O vestibular da USP usa um terrível sistema baseado em carreiras.

Def. Carreiras são conjuntos disjuntos não-vazios de cursos universitários que em geral tem algo em comum (e.g., uma carreira pode ter Engenharia de Produção e Ciência da Computação porque ambos são cursos pra seres humanos — não sei se poderia haver alguma outra razão mais específica, sem ser através da Lei dos Cinco, mas creio que não).

No sistema da USP o candidato escolhe uma carreira, cursos que gostaria de fazer nessa carreira e sua ordem de preferência.

Passam pra segunda fase do vestibular três vezes o número de vagas disponíveis na carreira. Depois da segunda fase, os candidatos são ordenados de acordo com a nota da segunda fase e roda-se um algoritmo assim:

1
2
3
4
5
6
7
8
for (int pos = 0; tem_vagas_sobrando() && pos < n; pos++) {
    for (int opcao = 0; opcao < 4; opcao++) {
        if (tem_vagas_no_curso(pessoa[pos].opcao[opcao])) {
            da_vaga(pessoa[pos], pessoa[pos].opcao[opcao]);
            break;
        }  
    }  
}

Estava com sono e dificuldade de pensar quando postei. Outra hora tento passar pra uma língua menos nerd.

São os institutos que decidem em que carreira seus cursos vão entrar e o negócio fica uma bagunça. A maioria das carreiras têm cursos iguais com diferença apenas de período (diurno e noturno), mas há carreiras de institutos inteiros (a FEA, por exemplo, tem apenas uma carreira onde coloca Economia [diurno e noturno], Administração [diurno e noturno], Ciências contábeis [diurno e noturno] e Bacharelado em Ciências Atuariais), de cursos iguais em diferentes campi (na carreira de Direito, por exemplo, o candidato pode escolher entre o Largo São Francisco e Ribeirão Preto) e, por fim, carreiras como a minha: Engenharia na Escola Politécnica e Computação, que oferece (versão Fuvest 2010):

  • Engenharia Civil e Engenharia Ambiental (poli)
  • Engenharia Elétrica (ênfases: Automação e controle, energia e automação elétricas, sistemas eletrônicos, telecomunicações) (poli)
  • Engenharia Mecânica e Engenharia Naval (poli)
  • Engenharia Química, Engenharia Metalúrgica, Engenharia de Materiais, Engenharia de Minas e Engenharia de Petróleo (poli)
  • Engenharia de Computação e Engenharia Elétrica (ênfase Computação) (poli)
  • Engenharia Mecânica – Automação e Sistemas (Mecatrônica) (poli)
  • Engenharia de Produção (poli)
  • Bacharelado em Ciência da Computação (IME!)

Reza a lenda que essa era uma carreira que tinha todos os cursos que classificam como Exatas (uma classificação ridícula, na minha opinião) e todos eles foram saindo, até que no meu ano sobraram só as engenharias da Poli e o BCC.

(E eu prefiro acreditar nisso porque me doeria acreditar o contrário — aceitar que em certo momento da História algum idiota professor decidiu que Ciência da Computação tem mais a ver com Engenharia Ambiental do que com Matemática.)

Agora veja o problema: Em um ano aqui, aprendi que trabalhar em bancos está na moda em São Paulo. Como se formar em engenharia na Escola Politécnica é garantia desse nobre emprego, fazem um monte de cursinhos (e turmas especiais neles) voltados a destruir o cérebro das ensinar crianças (o link é bom; clique!) pra jihad passar na Fuvest. O resultado é que um catarinense que quer entrar no Bacharelado em Ciência da Computação não consegue nem passar da primeira fase do concurso. Se passa pra segunda fase, ainda assim precisa competir com estudantes que colocaram o BCC na quarta opção para não decepcionar os pais e seu ego caso não passem nas três engenharias que desejam.

E não para por aí.

O BCC abre 50 vagas por ano e neste ano matricularam-se 31 calouros. Os alunos da turma (para a qual dou monitoria da disciplina Introdução à Computação) me contaram que tem 26 pessoas indo assistir as aulas. Enquanto há jovens no Brasil inteiro querendo entrar neste curso, que considero um dos melhores (se não o melhor) do país, a sala da turma de 2010 está com metade de sua capacidade porque gente que queria fazer engenharia marcou a opção do BCC e não fez a matrícula.

A solução imediata é óbvia: tirar o Bacharelado em Ciência da Computação da carreira da Escola Politécnica.

Felizmente, não sou o único que penso isso. Então, após todo esse preâmbulo, informo em primeira mão: a Congregação do Instituto de Matemática e Estatística, em sessão ordinária realizada hoje (29/04) da qual tive o enorme prazer de participar, aprovou por unanimidade essa decisão, que já havia sido aprovada (também por unanimidade) dentro do Departamento de Computação.

Será criada nesse ano na Fuvest uma carreira chamada “Bacharelado em Ciência da Computação”, que a princípio terá 50 vagas, mas para a qual será convidado o Bacharelado em Ciência da Computação do ICMC-USP (São Carlos).

A decisão é fantástica e será fundamental pra vida de diversos futuros estudantes desta faculdade. Já estou ansioso pelo ano que vem…

Vergonha

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 8 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

O disciplina é “Princípios de Desenvolvimento de Algoritmos” e ela está sendo ministrada neste semestre pelo Prof. Dr. Carlos Eduardo Ferreira, participante do grupo de otimização combinatória, diretor nacional da Maratona de Programação e orientador da minha iniciação científica.

A turma é do Bacharelado em Ciência da Computação no IME-USP.

Acabei de receber a seguinte mensagem de um dos monitores:

Screenshot

Preciso dizer mais alguma coisa?

Assembleia na FAU

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 8 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

Uma memória me surgiu de repente. Precisava escrever.

Era maio de 2009. Não lembro o dia.

Campus da Universidade de São Paulo.

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

Havia muito barulho e resolvi entrar.

Cerca de 400 estudantes em assembleia.

As pessoas falavam num microfone, mas era muito difícil ouvir.

Gente defendendo um lado e outro.

Recebendo aplausos, vaias.

Propostas, votações.

A maioria delas era sobre o diretor, Prof. Sawaya.

A que me lembro era para decidir se a FAU entraria ou não em greve.

Não houve contraste e os votos foram contados, um a um.

Não entrar em greve ganhou, mas isso não é importante.

O que marcou o dia, pra mim, foi um casal que estava bem a minha frente.

Ao ouvir que deveriam levantar as mãos os que eram a favor da greve, a garota olhou pro seu namorado, visivelmente triste.

E disse umas palavras que eu posso dizer, sem exagero, que mudaram minha vida:

“Eu não vejo a hora de terminar esse curso. Porém, não tenho coragem de votar contra a greve.”

E levantou as duas mãos.

Pra ela a universidade era mais importante do que ela.

A ponto de valer a pena defender a visão em que acreditava mesmo que isso significasse adiar sua formatura.

No IME só ouvi o pensamento inverso, gente preocupada apenas em terminar o seu curso e indiferente aos problemas de sua universidade.

Não há um dia lá em que eu não veja uma prova de que individualismo é a cara de São Paulo.

Porém, há esperança.

Semana santa

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Acordei às 06:30. Às terças eu tenho aula de Álgebra ás 08:00 e não queria perder essa, porque a professora ficou de corrigir minha nota. Peguei o circular às 07:35. Cheguei no IME às 07:45. Horário perfeito.

Porém, observei que as salas estavam fechadas e não havia alunos. Vi apenas seguranças, moças da limpeza e um ou outro professor. Perguntei para um segurança what the hell estava havendo. Ele informou que não tem aula na Semana Santa.

Jesus on the Cross
Creative Commons License photo credit: DNQA

Lembrei-me que tinha ouvido algo sobre a Semana Santa na semana passada, mas não dei muita atenção. Acho que meu cérebro ignorou porque não viu sentido em emendar uma semana inteira por causa de um feriado na sexta. Pensei que deveria ter ido mais nas aulas semana passada que algum professor teria avisado. Mas tudo bem. Porque notei que felizmente a biblioteca estava aberta, logo minha ida ao IME não teria sido em vão.

Havia reservado um livro que seria devolvido anteontem chamado Matching Theory (László Lovász, M. D. Plummer). É um livro fora de circulação, raríssimo e que, segundo consultas na internet, só existe em duas bibliotecas no Brasil: a do IME-USP e a do IMPA.

Eu estou procurando este livro desde o início de março, quando ainda estava em Floripa. Reservá-lo foi uma das primeiras coisas que fiz quando cheguei no IME (logo depois de fazer a carteirinha na biblioteca, é claro). Estava extremamente feliz por finalmente poder tê-lo.

Então pedi o livro à moça. Ela deu uma olhada nos livros que tinham chegado. Disse que este livro não chegou e que nem via sentido em ele ter chegado na semana santa. Eu disse-lhe que deveria ter chegado no dia 05. Ela duvidou. Eu insisti pra ela olhar na ficha. Ela olhou, riu (da minha cara) e disse que o livro estava com um professor.

“E daí?”, pensei. “Os professores devem ter um tempo maior de entrega, e só. Certo?”

Não. Errado. Perguntei à moça se o professor tinha atrasado a devolução e ela respondeu dizendo que os professores não só tem um prazo maior como não precisam devolver o livro no prazo. Ora, para quê o prazo então?

Controlei-me e perguntei então qual é o professor que estava com o livro. Provavelmente é alguém do grupo de otimização combinatória (talvez o meu orientador de iniciação científica), eu poderia falar com ele pra tirar cópias. A moça respondeu que não pode dizer.

Excelente então, fico sem livro e sem previsão de quando o professor vai devolver, sem nem saber se o livro ainda existe. Talvez eu nunca consiga o livro. Quem sabe?

Educadamente agradeci e fui pegar o circular para voltar pra casa. Há cinco dias estou morando a 160m da Entrada do Mercadinho (i.e., 700m do ponto de circular mais próximo dentro da Cidade Universitária).

Quando estava quase chegando ao ponto de ônibus, vi o circular passando. Droga, mais uns 15 minutos de espera. Para não ficar sem fazer nada, resolvi ir andando.

A USP é enorme e tenho a impressão que andar com o Network Flows (Ahuja, Magnanti, Orlin) na mochila aumenta consideravelmente o seu tamanho.

Há ao menos duas maneiras de ir andando do IME pra minha casa. A primeira é o menor caminho, passando pela Rua do Matão (que não tem esse nome em vão, de fato fica no meio de uma selva). A segunda é o maior caminho, mas é pela civilização. Optei pela segunda.

Após três quilômetros e uns 30 minutos, cheguei (cansado) aqui (e, é claro, no meio do caminho outro circular passou por mim). Uma hora decididamente inútil. Acho que foi o meu trote.

foto_206 green hair
Creative Commons License photo credit: FADB
Ok, menos, também não foi tão ruim quanto o dele.

Ao menos nunca mais me esquecerei que na USP não tem aula na Semana Santa.

Probabilidade

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 8 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

Curiosamente as melhores aulas (em conteúdo e rigor matemático) que estou tendo no IMEUSP neste semestre são as de Introdução à Probabilidade e Estatística I (MAE 121). Digo “curiosamente” porque

0. Nunca gostei de estatística (e acreditava que este seria o foco da disciplina);

1. Álgebra e Cálculo tem um conteúdo que acredito ser bem mais matemático;

2. Sinceramente, não esperava nada desta disciplina.

Surpreendi-me porque, de fato, desde que entramos na matéria de Probabilidade tudo até agora foi definido ou provado formalmente. Por exemplo, espaço de probabilidade é a tripla (\Omega, F, P), onde \Omega é o espaço amostral, F é uma \sigma-álgebra que representa o conjunto dos eventos e P: F \rightarrow [0, 1] é a função probabilidade. Com três axiomas em cima dessa definição provamos uma porção de coisas.

Muito interessante. A probabilidade é uma área que eu desconhecia completamente (e discriminava em pensamento por andar sempre junto com Estatística), mas que é muito mais legal (em nível matemático) do que eu pensava.

Probability and Measure
Creative Commons License photo credit: John-Morgan