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Assembleia na FAU

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 8 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

Uma memória me surgiu de repente. Precisava escrever.

Era maio de 2009. Não lembro o dia.

Campus da Universidade de São Paulo.

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

Havia muito barulho e resolvi entrar.

Cerca de 400 estudantes em assembleia.

As pessoas falavam num microfone, mas era muito difícil ouvir.

Gente defendendo um lado e outro.

Recebendo aplausos, vaias.

Propostas, votações.

A maioria delas era sobre o diretor, Prof. Sawaya.

A que me lembro era para decidir se a FAU entraria ou não em greve.

Não houve contraste e os votos foram contados, um a um.

Não entrar em greve ganhou, mas isso não é importante.

O que marcou o dia, pra mim, foi um casal que estava bem a minha frente.

Ao ouvir que deveriam levantar as mãos os que eram a favor da greve, a garota olhou pro seu namorado, visivelmente triste.

E disse umas palavras que eu posso dizer, sem exagero, que mudaram minha vida:

“Eu não vejo a hora de terminar esse curso. Porém, não tenho coragem de votar contra a greve.”

E levantou as duas mãos.

Pra ela a universidade era mais importante do que ela.

A ponto de valer a pena defender a visão em que acreditava mesmo que isso significasse adiar sua formatura.

No IME só ouvi o pensamento inverso, gente preocupada apenas em terminar o seu curso e indiferente aos problemas de sua universidade.

Não há um dia lá em que eu não veja uma prova de que individualismo é a cara de São Paulo.

Porém, há esperança.

Greve na USP

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 8 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

Na verdade trata-se da narração do dia de hoje, cujo principal evento interessante para o público em geral é a greve na USP, contada informalmente por alguém que presenciou um ato e não tem lado muito bem definido (embora em algumas coisas concorde com um ou com outro). É importante ainda deixar claro de início que nem mesmo discutirei os motivos da greve aqui, porque quero evitar discussões pela internet (em geral há mais trollismo do que na vida real).

Enfim, acordei às 4:00 e não consegui mais dormir. Rafael ontem me recordou algo importante que Vinícius de Moraes disse em seu Testamento: que o tempo é curto e não para de passar.

Tomando a frase como mote para o dia, saí para caminhar no campus da USP, que tem estado lindo ensolarado. O plano era simples: conhecer coisas, conhecer pessoas, fazer algo aleatório, fazer algo diferente, tentar me tornar uma pessoa mais completa (i.e., desnerdiar, curiosamente no Dia do Orgulho Nerd). Devo deixar claro que não me falta coisa diferente para fazer se considerarmos trabalhar e estudar para uns 10 assuntos diferentes como coisas diferentes, mas sinto falta de coisas diferentes como o convívio social na UFSC.

Então, após uma rápida aula de Cálculo, saí vagando pelo campus. Visitei o prédio da FAU, da FEA, alguns da ECA (inclusive cheguei a tocar piano numa sala de estudo do departamento de música) e acabei na entrada do departamento de letras da FFLCH. Vi que havia cerca de 20-30 estudantes reunidos conversando na grama e, como quem não quer nada, me juntei a eles.

O que estava acontecendo era um debate sobre movimentos estudantis. Um grupo majoritário argumentava contra o UNE (e em especial o CONUNE) e incentivava o Congresso Nacional dos Estudantes, que é realizado por um novo movimento estudantil que se justifica pela burocratização e corrupção do primeiro.

Cerca de uma hora depois (ou talvez um pouco mais) de muitas opiniões e excelentes falas (preciso aprender a argumentar do jeito desse pessoal), o debate acabou e fiquei por ali pra ver o que acontecia. Uma garota simpática deve ter percebido que eu era de fora e perguntou o que eu tinha achado do debate.

Como se tratava de um debate sobre um assunto sobre o qual não tenho experiência alguma, disse que achei interessantes os argumentos e que estava ali justamente para ouvir coisas diferentes. Disse que me parece simpática a idéia de um movimento estudantil que substitua o UNE e o CONUNE, mas preciso saber muito mais antes de tomar partido.

Conheci mais algumas pessoas (que escreveram este documento) e fui com elas para o ato que estava tendo em frente a reitoria. Afinal, por que não? O dia estava sendo muito interessante até aqui.

Comi um espetinho (super gostoso, por apenas um real… e acompanha pão!) e conversamos sobre uma porção de coisas (na verdade eu mais ouvi, não sou de falar muito num grupo de pessoas que não me conhecem), principalmente sobre universidade e política. Impressionei-me com a riqueza das idéias e com a inteligência da discussão. Ouvi excelentes argumentos e aprendi bastante sobre os motivos da greve atual e sobre aquela greve de 2007. Descobri, pelos próprios participantes, o que é o DCE da USP.

Era cerca de 13:30 e várias pessoas (dentre funcionários, professores e alunos de USP, UNICAMP e UNESP) gritavam no autofalante. Havia tambores, faixas e pessoas pintadas. Hoje deveria acontecer uma reunião entre o CRUESP (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) e o Fórum das Seis (representantes de alunos, professores e funcionários de USP, UNICAMP e UNESP).

As pessoas que falavam no autofalante disseram que a reitoria não tinha permitido a entrada dos representantes e convidaram todos a ir para o outro lado da reitoria (a entrada) para pressionar a entrada.

Pelo que entendi, os funcionários da USP exigiam que Brandão (ex-diretor do sindicato que foi demitido no início desse ano, um dos motivos da greve) participasse como seu representante no Fórum das Seis, enquanto a reitoria não queria permitir. Além disso, a reitoria se negava a receber dois representantes dos alunos de cada universidade (por algum motivo ela só queria receber um, embora dos professores e funcionários ela aceitasse receber dois).

Houve uma negociação e a reunião pareceu ter sido cancelada por causa dessa divergência, o que foi extremamente revoltante para todos os presentes. Então a manifestação seguiu com gritos e cantos como “Sai Sueli [(reitora da USP)], entra Brandão!”, “Entra Brandão, senão ocupação!”. Foi baixando o nível para “Acabou o amor, isso aqui vai virar o inferno” e obviamente acabou com o uso de força. Estudantes e funcionários presentes arrombaram a porta usando a tampa de bueiros e invadiram a reitoria, fato agora pouco noticiado no UOL (não com tantos detalhes como os que eu escrevo). Presenciei um evento histórico. E há rumores que nesse momento a reitoria está ocupada, como em 2007. [update] Agora dizem que há tropas de choque na reitoria e estou ouvindo daqui helicópteros sobrevoando a USP. O negócio ficou feio MESMO. [/update]

Fato: a greve está tomando proporções maiores e se tornando mais perigosa. Mais funcionários estão aderindo, os outros campi estão aderindo, UNESP e UNICAMP estão aderindo. A invasão (e possível ocupação) da reitoria da USP é bem significativa. Há muitas coisas pelas quais os estudantes, professores e funcionários lutam (e em algumas delas eles tem razão, noutras é muito difícil se posicionar) nesse mês de maio e tenho impressão de que a Reitoria não dá muita importância (já passaram três semanas sem circular e sem bandejão e enquanto a greve estava fraca praticamente não houve discussão), o que faz mal para toda a população que visita a universidade.

Sobre a greve dos estudantes: Nesta semana estudantes de todos os institutos da USP estão fazendo assembléias que culminarão numa grande Assembléia Geral nessa quinta que decidirá pela greve ou não-greve (acredito que a decisão seja pela não-greve).

Sobre a greve dos professores: Também nesta semana (acho que amanhã) a ADUSP (Associação de Docentes da USP) decidirá se haverá ou não greve. Como não houve reunião hoje, é bem possível que ocorra. Porém, duvido que eu deixe de ter aulas, pois meus professores no IME já se manifestaram explicitamente contra a greve e contra a ADUSP.

Não é meu objetivo nesse post defender ou criticar a invasão da reitoria. Mas foi extremamente interessante participar desse evento, conhecer pessoas e ouvir excelentes discussões. Para mim, foi um ótimo dia. Desestressante, divertido. De certa forma (politicamente, ideologicamente, socialmente) um pouco pesado, que me deixou cheio de dúvidas e sem saber ao certo o que é certo (não que antes eu soubesse), mas precisamente o que eu precisava. Agora é hora de voltar a estudar… :)