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E-books devem ampliar nossa liberdade, não reduzí-la

Li o texto “E-books must increase our freedom, not decrease it” (de Richard Stallman) no boletim da Free Software Foundation de julho/2012. É sobre os livros digitais e os dispositivos (como o Kindle, da Amazon) que estamos usando para lê-los. O texto foi escrito especialmente para o jornal britânico The Guardian, mas achei os problemas que o Stallman levanta bem relevantes e suas ideias para solucioná-los muito interessantes. Por isso, fiz uma tradução livre e descompromissada, que compartilho abaixo. Quem tiver sugestões para melhorar a tradução, por favor entre em contato.


Eu adoro o livro The Jehovah Contract e eu gostaria que todo mundo gostasse dele também. Por isso, eu o emprestei pelo menos seis vezes nos últimos anos. Livros impressos deixam a gente fazer isso.

Porém, eu não posso fazer isso com a maioria dos e-books comerciais. “Não é permitido”. E se eu tentar desobedecer, não vou conseguir porque o programa que roda nos e-readers possui recursos maliciosos chamados Digital Restrictions Management (ou DRM) para restringir minha leitura. Os e-books são encriptados de forma que apenas softwares maliciosos são capazes de abrí-los.

Muitos outros hábitos com os quais nós, leitores, estamos acostumados, “não são permitidos” para e-books. Usuários de Amazon Kindle, por exemplo, não podem comprar um livro anonimamente (com dinheiro). Os livros do Kindle normalmente estão disponíveis apenas pela Amazon e a Amazon faz com que os usuários se identifiquem. Logo, a Amazon sabe exatamente que livros cada usuário leu. Num país como o Reino Unido, onde você pode ser processado por possuir um livro proibido, isso é mais do que hipoteticamente orwelliano.

Além disso, você não pode vender o e-book depois de lê-lo (se a Amazon triunfar, os sebos onde eu passei muitas tardes serão história). E você não pode dá-lo para um amigo também, porque, de acordo com a Amazon, você nunca realmente foi dono dele em primeiro lugar. A Amazon requer que os seus usuários assinem um End User License Agreement (EULA) que diz isso.

Na verdade, você não pode nem mesmo ter certeza de que ele ainda estará na sua máquina amanhã. Há algum tempo atrás, pessoas lendo 1984 num Kindle tiveram uma experiência bem orwelliana: seus e-books desapareceram bem diante de seus olhos. A Amazon usou um recurso malicioso chamado “back door” para deletá-los remotamente (queima de livros virtual! É isso que Kindle significa?). Mas não se preocupe: a Amazon prometeu nunca mais fazer isso. Exceto por ordem do Estado.

Com software, ou o usuários controlam o programa (software livre) ou o programa controla o usuário (software não-livre). As políticas da Amazon para e-books imitam as políticas de distribuição de softwares não-livres, mas não é essa a única a relação entre os dois. Os recursos maliciosos dos softwares descritos acima são impostos aos usuários através de programas que não são livres. Se um programa livre tivesse um recurso malicioso como aqueles, algum usuário hábil em programação o removeria e então disponibilizaria uma versão corrigida para todos os outros usuários. Mas usuários não podem alterar software não-livre, o que o transforma num instrumento ideal para exercer o poder sobre o público.

Qualquer uma dessas usurpações da nossa liberdade é razão suficiente para dizer não. Se essas políticas se limitassem apenas à Amazon, nós as ignoraríamos. Porém, as políticas dos outros negociantes de e-books são bem parecidas.

O que me preocupa mais é o prospecto de perder a opção do livro impresso. O jornal The Guardian anunciou leituras apenas digitais: em outras palavras, livros disponíveis apenas pelo preço da liberdade. Eu não vou ler nenhum livro com esse preço. Daqui a cinco anos, serão cópias não-autorizadas as únicas cópias eticamente aceitáveis para a maioria dos livros?

Não precisa ser dessa forma. Com pagamento anônimo na internet, pagar por downloads de e-books sem DRM e sem EULA respeitaria nossa liberdade. Lojas físicas poderiam vender tais e-books por dinheiro, como a música digital em CDs — ainda disponíveis mesmo que a indústria da música esteja incentivando agressivamente serviços restritos com DRM como o Spotify. Lojas físicas de CDs enfrentam os custos de um inventório caro, mas lojas físicas de e-books poderiam apenas escrever cópias dos livros no seu pendrive. Aí o pendrive novo seria o único item físico a ser armazenado e vendido pela loja, para caso você precise.

O motivo que as editoras dão para suas práticas restritivas com e-books é a proibição aos usuários de compartilhar cópias. Eles dizem que isso é para benefício dos autores, mas mesmo que isso fosse de interesse dos autores (de autores bem famosos talvez), não pode justificar DRM, EULA ou o Digital Economy Act (DEA) que persegue leitores por compartilhar. Na prática, o sistema de copyright faz um péssimo trabalho no apoio aos autores a não ser os mais populares. O principal interesse de outros autores é ser mais conhecido, então compartilhar seu trabalho beneficiaria eles assim como os leitores. Por que não mudar para um sistema que funcione melhor e seja compatível com o compartilhamento?

Um imposto sobre conectividade à Internet, junto à linha geral da maioria dos países da União Europeia, poderia funcionar bem se três pontos forem acertados. O dinheiro deve ser coletado pelo Estado e distribuído de acordo com a lei, não dado para uma entidade de gestão privada; ele deve ser dividido entre todos os autores, e nós não devemos deixar as empresas pegarem nada deles; e a distribuição do dinheiro deve ser baseada numa escala móvel, não numa proporção linear à popularidade. Eu sugiro usar a raiz cúbica da popularidade de cada autor: se A é 8x mais popular que B, A recebe 2x o que B recebe (não 8x o que B recebe). Isso ajudaria muitos escritores razoavelmente populares adequadamente em vez de enriquecer poucas estrelas.

Outro sistema é dar a cada e-reader um botão para enviar uma pequena quantia (talvez 25 libras no Reino Unido) para o autor.

O compartilhamento é bom e, com tecnologia digital, o compartilhamento é fácil. (Digo, a redistribuição não-comercial de cópias exatas.) Então o compartilhamento tem que ser legal e evitar compartilhamentos não pode uma desculpa para transformar e-books em algemas para os leitores. Se e-books significam que a liberdade dos usuários precisa ou ser ampliada ou ser reduzida, nós precisamos exigir que ela seja ampliada.

Ataque, não: protesto!

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 6 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

por Richard Stallman (Free Software Foundation)

O Stallman escreveu algo parecido com o que eu estava há semanas sentindo necessidade de escrever. Explica por quê tirar sites do ar não requer inteligência, o que é DDoS e o que é botnet. Não chama os manifestantes de moleques como fazem alguns petistas aqui no Brasil e responsabiliza a vigilância, os interesses capitalistas e os governos pelos protestos. Texto muito interessante. Recomendo!

Os protestos online feitos pelo grupo Anonymous são equivalentes a uma manifestação na internet. É um erro classificá-los como atividade de grupos hackers (uso da astúcia brincalhona) ou de crackers (invasão de sistemas de segurança).

O programa que os manifestantes usam, chamado LOIC, já vem pré-configurado, de modo que nenhuma astúcia é necessária para rodá-lo, e ele não invade o sistema de segurança de nenhum computador.

Os manifestantes do Anonymous não tentaram assumir o controle do site da Amazon e nem roubar dados da MasterCard. Eles entram pela porta da frente de uma página, que simplesmente não é capaz de suportar tantos visitantes ao mesmo tempo.

Chamar os protestos organizados por eles de “ataques de negação de serviço” (DDoS) também está errado. Um ataque DDoS propriamente dito é feito por meio de milhares de computadores zumbis. Alguém invade o sistema de segurança destes computadores (com frequência recorrendo a um vírus) e assume remotamente o controle sobre eles, programando-os para formar uma botnet (rede de zumbis, que é um sistema em que computadores aliciados desempenham automaticamente a mesma função) que atende em uníssono às suas ordens (neste caso, a ordem é sobrecarregar um servidor). A diferença é que os manifestantes do Anonymous em geral fizeram eles mesmos que seus próprios computadores participassem do protesto.

A comparação mais adequada seria com as multidões que foram, em dezembro de 2010, protestar diantes das lojas da Topshop (cadeia de varejo de moda no Reino Unido). Aquelas pessoas não invadiram as lojas e nem subtraíram dali nenhuma mercadoria, mas certamente provocaram um grande inconveniente.

Eu não gostaria nem um pouco se minha loja (supondo que eu tivesse uma) fosse alvo de um protesto de grandes proporções. A Amazon e a MasterCard tiveram uma reação parecida, e seus clientes ficaram irritados. As pessoas que tinham a intenção de fazer uma compra na Topshop naquele dia também devem ter ficado incomodadas.

A internet não pode funcionar se os sites forem constantemente bloqueados por multidões, assim como uma cidade não funciona se suas ruas estiverem sempre tomadas por protestos. Mas, antes de declarar seu apoio à repressão dos protestos na internet, pense no motivo de tais protestos: na internet, os usuários não têm direitos.

Como ficou claramente demonstrado no caso do WikiLeaks, devemos suportar sozinhos as consequências daquilo que fazemos na rede.

No mundo físico, temos o direito de publicar e vender livros. Quem quiser impedir a publicação do livro tem de levar o caso a um tribunal. Para criar um site na rede, porém, precisamos da cooperação de uma empresa de concessão de domínios, de um provedor de acesso à internet (ISP) e, com frequência, de uma empresa de hospedagem, e cada um desses elos pode ser individualmente pressionado a cortar o nosso acesso.

Nos Estados Unidos, nenhuma lei exige explicitamente tal precariedade. Em vez disso, ela está encarnada nos contratos que essas empresas estabeleceram como normais, com o nosso consentimento. É como se todos nós morássemos em quartos alugados e os senhorios pudessem despejar qualquer um sem notificação prévia.

A leitura também é feita apesar das consequências. No mundo físico, podemos comprar um livro de maneira anônima, usando dinheiro. Uma vez que ele nos pertença, temos a liberdade de oferecê-lo como presente, emprestá-lo ou vendê-lo a outra pessoa. Temos também a liberdade de guardá-lo. Entretanto, no mundo virtual, os e-readers têm algemas travas digitais que impedem o usuário de oferecer como presente, emprestar ou vender um livro, além das licenças que proíbem tal prática. Em 2009, a Amazon usou as portas dos fundos de seu e-reader para apagar remotamente milhares de cópias de 1984, de George Orwell, de aparelhos Kindle. O Ministério da Verdade foi privatizado.

No mundo físico, temos o direito de pagar em dinheiro e receber em dinheiro — mesmo de modo anônimo. Na internet, só podemos receber dinheiro com a aprovação de organizações como PayPal e MasterCard, e o Estado de vigilância rastreia os pagamentos a todo instante. Leis como a Ata da Economia Digital, que castigam os acusados antes de serem confirmadas as suspeitas, estendem esse padrão de precariedade à conectividade com a internet.

Por meio dos softwares não-livres, aquilo que você faz em seu próprio computador também é controlado pelos outros.

Os sistemas da Microsoft e da Apple contam com algemas digitais — recursos projetados especificamente para restringir a liberdade de ação dos usuários. O uso contínuo de um programa ou recurso também é precário: a Apple manteve uma porta dos fundos no iPhone para poder apagar remotamente aplicativos instalados. Uma porta dos fundos observada no Windows permite que a Microsoft instale alterações no software sem pedir permissão.

Dei início ao movimento do software livre com o objetivo de substituir o software proprietário que controla o usuário por programas que respeitem a liberdade. Com o software livre, podemos ao menos controlar aquilo que os programas fazem em nossos próprios computadores. O programa LOIC, usado pelos manifestantes do Anonymous, é um software livre; em particular, os usuários podem ler seu código fonte e alterá-lo, impossibilitando assim que ele imponha recursos maliciosos como fazem Windows e MacOS.

O Estado americano atual é um nexo de poder para os interesses corporativos. Como ele precisa fingir que serve ao povo, este Estado teme que a verdade seja revelada. Daí decorrem suas campanhas paralelas contra o WikiLeaks: as tentativas de esmagá-lo por meio da precariedade da internet e limitar formalmente a liberdade da imprensa.

Desconectar o WikiLeaks equivale a sitiar manifestantes em uma praça. Ataques preventivos da polícia provocam uma reação; então eles usam os pequenos delitos das pessoas enfurecidas para afastar a atenção dos grandes delitos do Estado. Assim, a Grã-Bretanha deteve o manifestante que se pendurou de uma bandeira, mas não o homem (supostamente um policial) que rachou o crânio de um estudante. Da mesma maneira, os Estados tentam aprisionar os manifestantes do Anonymous, e não os torturadores e assassinos que trabalham para o poder.

No dia em que nossos governos processarem os criminosos de guerra e nos contarem a verdade, o controle das multidões na internet será o mais urgente dos problemas que nos restarão. Será um regozijo se eu testemunhar a chegada deste dia.

Tradução: Augusto Calil (um pouco modificada, porque acredito que o tradutor confundiu software livre com software gratuito em alguns pontos)

Diagnóstico de Alice

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 8 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

O problema do meu Amazon PC Slim L92 é uma incompatibilidade da sua placa-mãe com seu processador.

Fontes afirmam que testes realizados na Amazon PC revelaram que trocando o meu processador (Merom T5750) por um Penryn T8100 (US$ 230 nos EUA) ou T9300 (US$ 350 nos EUA) não há mais problema pra usar o computador com 4GB de memória RAM e um sistema operacional de 64 bits.

É evidente que a culpa originalmente não era da Amazon PC, mas da Compal, que foi capaz de fabricar e vender um laptop com processador incompatível com a placa-mãe. Porém, a Amazon PC não só não testou suficientemente o produto, como sua política de solução do problema foi escondê-lo aplicando este hack no software.

Exijo que a Amazon PC reverta a sua política de esconder o problema assumindo a culpa e consertando ou trocando o meu laptop por um com configuração igual ou superior, pois foi ela que me vendeu o produto e ela que me deve a garantia (ora, se vender laptops fosse só comprar de fora e colocar um preço eu também venderia laptops). Sugiro ainda ao pessoal da Amazon PC que eles reclamem e peçam indenização da Compal, mas isso já está fora da minha jurisdição.

Informo a todos os leitores que tomarei todas as providências que estiverem ao meu alcance pra que isto aconteça e que atualizarei este blog quando houver novas informações sobre o caso.

[update 27/ago/2009] O pessoal do Fórum Clube do Hardware afirma que a Intelbras resolveu o problema trocando por Penryn T6400. Este é melhor porque é mais barato que os sugeridos pela Amazon. Estou convencido que qualquer Penryn resolve o problema.

Sobre os meus 5²³ problemas com meu laptop

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 8 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

Comprei na Fnac no dia 15 de janeiro deste ano um Amazon PC Slim L92 12” com as seguintes especificações:

  • Processador: Intel(R) Core(TM)2 Duo CPU T5750 @ 2.00GHz
  • Placa-mãe: Compal JFT00 (versão da bios: 1.05A)
  • Disco rígido: Samsung HM250JI (250GB)
  • Memória RAM: 4GB DDR2 SODIMM (dois pentes de 2GB)

O resto é irrelevante para este post, mas pros geeks desocupados deixo aqui o lspci e o lsusb:

root@alice ~ # lspci -nn
00:00.0 Host bridge [0600]: Intel Corporation Mobile PM965/GM965/GL960 Memory Controller Hub [8086:2a00] (rev 03)
00:02.0 VGA compatible controller [0300]: Intel Corporation Mobile GM965/GL960 Integrated Graphics Controller [8086:2a02] (rev 03)
00:02.1 Display controller [0380]: Intel Corporation Mobile GM965/GL960 Integrated Graphics Controller [8086:2a03] (rev 03)
00:1a.0 USB Controller [0c03]: Intel Corporation 82801H (ICH8 Family) USB UHCI Controller #4 [8086:2834] (rev 03)
00:1a.7 USB Controller [0c03]: Intel Corporation 82801H (ICH8 Family) USB2 EHCI Controller #2 [8086:283a] (rev 03)
00:1b.0 Audio device [0403]: Intel Corporation 82801H (ICH8 Family) HD Audio Controller [8086:284b] (rev 03)
00:1c.0 PCI bridge [0604]: Intel Corporation 82801H (ICH8 Family) PCI Express Port 1 [8086:283f] (rev 03)
00:1c.1 PCI bridge [0604]: Intel Corporation 82801H (ICH8 Family) PCI Express Port 2 [8086:2841] (rev 03)
00:1c.2 PCI bridge [0604]: Intel Corporation 82801H (ICH8 Family) PCI Express Port 3 [8086:2843] (rev 03)
00:1d.0 USB Controller [0c03]: Intel Corporation 82801H (ICH8 Family) USB UHCI Controller #1 [8086:2830] (rev 03)
00:1d.1 USB Controller [0c03]: Intel Corporation 82801H (ICH8 Family) USB UHCI Controller #2 [8086:2831] (rev 03)
00:1d.2 USB Controller [0c03]: Intel Corporation 82801H (ICH8 Family) USB UHCI Controller #3 [8086:2832] (rev 03)
00:1d.7 USB Controller [0c03]: Intel Corporation 82801H (ICH8 Family) USB2 EHCI Controller #1 [8086:2836] (rev 03)
00:1e.0 PCI bridge [0604]: Intel Corporation 82801 Mobile PCI Bridge [8086:2448] (rev f3)
00:1f.0 ISA bridge [0601]: Intel Corporation 82801HEM (ICH8M) LPC Interface Controller [8086:2815] (rev 03)
00:1f.1 IDE interface [0101]: Intel Corporation 82801HBM/HEM (ICH8M/ICH8M-E) IDE Controller [8086:2850] (rev 03)
00:1f.2 SATA controller [0106]: Intel Corporation 82801HBM/HEM (ICH8M/ICH8M-E) SATA AHCI Controller [8086:2829] (rev 03)
00:1f.3 SMBus [0c05]: Intel Corporation 82801H (ICH8 Family) SMBus Controller [8086:283e] (rev 03)
01:00.0 Ethernet controller [0200]: Atheros Communications Inc. AR242x 802.11abg Wireless PCI Express Adapter [168c:001c] (rev 01)
02:00.0 Ethernet controller [0200]: Marvell Technology Group Ltd. 88E8055 PCI-E Gigabit Ethernet Controller [11ab:4363] (rev 12)
root@alice ~ # lsusb
Bus 002 Device 002: ID 0bda:0158 Realtek Semiconductor Corp. Mass Stroage Device
Bus 002 Device 001: ID 1d6b:0002 Linux Foundation 2.0 root hub
Bus 006 Device 001: ID 1d6b:0001 Linux Foundation 1.1 root hub
Bus 005 Device 001: ID 1d6b:0001 Linux Foundation 1.1 root hub
Bus 004 Device 001: ID 1d6b:0001 Linux Foundation 1.1 root hub
Bus 001 Device 002: ID 04f2:b052 Chicony Electronics Co., Ltd 
Bus 001 Device 001: ID 1d6b:0002 Linux Foundation 2.0 root hub
Bus 003 Device 002: ID 147e:2016  
Bus 003 Device 001: ID 1d6b:0001 Linux Foundation 1.1 root hub

Alice (é o nome do laptop) veio com Windows Vista 64 bits e a primeira coisa que notei nela foi um estranho desligamento do nada (no seu primeiro dia de vida), antes mesmo de eu instalar Linux! (ou seja, nos seus primeiros minutos, pois obviamente a primeira coisa a fazer quando se recebe um computador com Windows é instalar um Linux)

Compal JFT00

Pensei ser problema do sistema operacional e não dei bola. Mas aí a coisa ficou estranha: coloquei um CD minimal do Gentoo amd64 e quando ele iniciava o computador desligava do nada.

Para não precisar resolver o problema na hora, instalei um Ubuntu 32 bits (que, estranhamente, não desligava) e entrei na internet para pesquisar.

A página que melhor refletiu esse problema foi essa: 64-bit Intrepid automatic permanent reboot loop related to having exactly 4GB of memory (Ubuntu Bug #272530) e talvez também essa.

Como o laptop estava com lacres de garantia, ao invés de abrir e tirar 2GB de memória pra testar levei-a até a divisa entre Florianópolis e São José (um local lá perto de onde o Peterson vive) para a Wil Informática, única autorizada da Amazon PC na região.

Lá chegando o cara do suporte falou que tinha outros laptops da Amazon dando problema e que podia ser devido aos 4GB de memória. Trocou os pentes e pensou que funcionaria. Funcionou por alguns minutos na mão dele. Chegando em casa notei que o problema continuava e, como não tinha mais lacres, tirei um pente.

O laptop com 2GB de memória RAM não teve problema algum. Instalei Gentoo, pesquisei mais um pouco e encontrei a opção mem=4000M que deveria passar para o Kernel só reconhecer 3 e com isso funcionar com 64 bits.

amazonPC

Continuei pesquisando, entrei em contato com a Amazon (que não ajudou em nada a não ser sugerir algo equivalente a mem=4000M pra Windows) e troquei e-mails com o Wil (que prometeu passar minha queixa para a Amazon trocar minha placa-mãe e desde 9 de fevereiro não me respondeu). No fim, não tive opção senão ficar com o laptop e, como ele não dava problemas com 3GB, resolvi deixar pra lá.

Há cerca de dois meses, porém, o laptop começou a apresentar outro problema. De vez em quando (quando eu fazia-o processar muito), ele desligava do nada. Quem tem noção de como é o Gentoo sabe que fazer o computador processar muito faz parte do dia-a-dia.

Estranhando o comportamento, mas atribuindo-o a eu estar usando versões bleeding edge (hard masked) de Kernel, GCC & etc, resolvi usar um Ubuntu 32 bits por um tempo até ter disponibilidade pra reinstalar um Gentoo com carinho.

Nos primeiros dias de Ubuntu ele travava com frequência, mas acreditei que fosse por culpa da placa de vídeo (tinha duas opções no Ubuntu: usava Compiz — blacklisted pa minha placa de vídeo — ou tinha um lag infernal pra trocar de área de trabalho no Gnome. Fiquei com a primeira), então não dei bola. Curiosamente os problemas cessaram e continuei usando o Ubuntu [razoavelmente-]feliz por mais algum tempo. De vez em quando o computador desligava quando eu fazia operações bastante pesadas e eu estranhava, mas pensava que era coincidência.

Funtoo

Nesse fim de semana ouvi falar do Funtoo e, mesmo com a agenda cheia, resolvi parar de usar Ubuntu de uma vez e fazer a Alice voltar a ter um sistema firme e forte. Baixei o stage 3 do ~core2_32, caprichei nos arquivos de configuração e quando rodei um emerge -DN world surpresa! O laptop desligou.

Superaquecimento? Podia ser, o cooler fazia um barulho desumano, embora o tempo em São Paulo fosse muito frio. O ACPI não me ajudava, porque a temperatura da thermal zone ficava oscilando entre 42, 55, 63, 68, 73 e 79 graus celsius o tempo todo, assim como o barulho do cooler.

Deixei-a desligada por um dia, coloquei-a com as pontas apoiadas em livro, super ventilada, e fui compilar o Gentoo. Novamente, o laptop desligou.

Só pode ser o problema da BIOS, pensei. Vou ver se tem uma versão nova… E não é que tem?

Windows Vista = shit

Ótimo, sofro um pouco mas instalo o Vista, atualizo a BIOS e depois isso vai estar corrigido. Alterei minha tabela de partições, criei uma partição primária especialmente pro Windows (porque sei que ele é chato com isso), iniciei com enorme desgosto a instalação do Vista e depois de digitar a product key mais de uma vez cheguei a conclusão que não ia conseguir instalá-lo. E depois ainda dizem que Linux é que é difícil…

Bom… Vou tentar instalar o Gentoo 64 bits, afinal ele já tinha funcionado no início do ano. Baixei e queimei um system rescue cd, o stage 3 do ~core2 e fui à luta. Resultado: desligamento sempre que tentava compilar alguma coisa pesada. Notava uma mensagem estranha muitas vezes: gcc internal compiler error

Está trabalhando demais? Vou tentar compilar com MAKEOPTS=”-j1″. Porém, mesmo resultado.

Resolvi voltar lá, configurei o Kernel e fui compilar. Em vários pontos dava essa segmentation fault (eu ia retirando as partes que davam esse erro), um deles (o último que eu anotei, aí resolvi desistir) foi no reiserfs:

fs/reiserfs/dir.c:231: internal compiler error: Segmentation fault

Pensei que só podia ser porque estava usando versões de Kernel e GCC muito novas, potencialmente instáveis (2.6.30-gentoo-r5 e 4.4). Mas por via das dúvidas resolvi procurar na internet. Eis o que encontrei:

- Random segfaults during compilation. These are signalled by compilation
  failing at undetermined points. Often trying to recompile will succesfully
  compile the file it was complaining about, but will fail for another. This is
  in general a sign of hardware problems.
...
There are multiple causes that can cause the above symptoms:
- Flaky hardware. This is showstopper number one. The cause can be either:
  - Insufficient power supply. To detect this try to unplug as many auxiliary
    devices (like cd-players, usb devices, etc.)  as possible and see whether
    the problem persists
  - Overclocked memory or CPU's can show random anomalous behaviour. Worse some
    hardware has these problems even at "factory speed". Lowering the clockspeed
    would be the solution to this problems
  - Overheated CPU's. CPU's have several calculation units which have a specific
    location on the chip. Compilation tends to intensively use a few of those
    units. This can cause heat problems within these units even when the overall
    chip temperature is within limits. If overheating is a problem a better cpu
    cooler often works. (Underclocking also works as heat increases with
    frequency)
  - Broken chipsets. There are some chipsets on motherboards which are broken.
    sometimes the os (read linux kernel) can work around some of these bugs,
    sometimes the only solution is a new motherboard.

Resolvi ainda testar o Funtoo estável pra desencargo de consciência, mas dessa vez o system rescue cd não bootou!!! Suponho então Broken chipset ou overclocked memory or CPU. Qual dessas? Apostaria na primeira, mas de fato não faço muita ideia, porque não entendo nada de hardware.

Resignado, ontem enviei e-mails detalhados para quatro assistências técnicas de São Paulo. Acabou o horário comercial há duas horas e nenhuma delas me respondeu.

Minha grande dificuldade é explicar isso pras assistências técnicas que, em geral, são compostas por pessoas que não entendem nada de Linux, nada de compilação e não compreendem nem mesmo o problema que tenho. Não que a última seja fácil, nem eu entendo esse problema (mas eu pelo menos sei que há algo errado). Elas testam deixando o computador ligado por algumas horas e, notando que ele não desliga, pensam que está tudo normal.

that-damntechsupportguy

Creio inclusive que há outros Compal JFT00 (a Intelbras produziu vários desses, além da Amazon) com o mesmo defeito, mas usuários comuns de computador nem devem notar.

Solução? Amanhã telefonarei pra Amazon e incomodarei eles até eles consertarem Alice de vez ou me prometerem um laptop novo. Por sorte Alice ainda está na garantia, que vai até janeiro de 2010. Espero que até lá eu já tenha resolvido tudo isso…