Arquivo mensais:agosto 2013

Condenar quem fala a verdade a 35 anos de prisão: Yes, we can

Bradley Manning acaba de ser condenado a 35 anos de prisão. Motivo: denunciar crimes de guerra cometidos pelos EUA no Iraque. Quem o acusou foi o governo de Barack Obama, vencedor do prêmio nobel da paz de 2009, que em sua campanha prometia incentivar e proteger os whistleblowers (como são chamados, em inglês, os que delatam condutas ilegais ou desonestas que ocorrem numa organização).

Como escreveu o jornalista Glenn Greenwald no seu perfil no Twitter logo após a leitura da sentença, “os Estados Unidos nunca mais vão poder falar sobre o valor da transparência e da liberdade de imprensa sem provocarem ataques de risos mundiais”. De fato, a perseguição que esse país e seus aliados têm protagonizado contra aqueles que revelam as suas verdades torna claros os limites da falsa democracia que eles tanto propagandeiam.

O tratamento exemplar dado a Manning, preso aos 22 anos e mantido de forma ilegal durante 3 anos na prisão antes do julgamento — tempo no qual esteve sujeito a condições de tortura relatadas até mesmo pela ONU como cruéis e desumanas — não é em vão. O grande medo dos poderosos é que o lema do WikiLeaks, “a coragem é contagiosa”, ganhe força.

Segundo o filósofo esloveno Slavoj Žižek, “o que acontece com as revelações do WikiLeaks é que a vergonha, deles e nossas por tolerar tal poder sobre nós, torna-se mais vergonhosa ao ser publicada”. Dessa forma, os whistleblowers cumprem o papel crucial de manter a “razão pública” viva e, por isso, precisam ser apoiados.

A campanha em torno da liberdade de Manning sem dúvidas teve papel decisivo para que uma injustiça maior não fosse cometida. Foi uma vitória nossa que Bradley não tenha sido condenado por ajudar o inimigo, crime que poderia lhe imputar a prisão perpétua ou até a pena de morte. Com a sentença de 35 anos, ele pode ser solto em até 9 anos. Ainda assim, a condenação é absolutamente injusta e abre precedentes preocupantes para os tempos que vivemos e que ainda estão por vir.

A Anistia Internacional declarou que o presidente Obama deveria trocar a sentença pelo tempo que Bradley já serviu, permitindo que ele seja libertado imediatamente. “Ao invés de ‘enviar uma mensagem’ condenando-lhe a uma sentença de facto de vida, o governo dos EUA deveria se preocupar em investigar violações aos direitos humanos e direito humanitário no contexto da mal concebida ‘guerra ao terror'”, declarou Widney Brown. Da mesma forma, a Bradley Manning Support Network (Rede de Apoio a Bradley Manning) agora exige que o presidente Obama conceda indulto a Manning e lançou um abaixo-assinado online.

Nós também devemos seguir na campanha pela liberdade de Bradley, Assange, Snowden e em defesa do WikiLeaks. Suas ações questionam e enfrentam o imperialismo e a ordem estabelecida, incentivando milhões de outros indignados que têm tomado as ruas e as redes para exigir mudanças e democracia real. Somos todos Bradley Manning!

Publicado originalmente no Juntos.

Companheiro de jornalista do caso Snowden é interrogado por 9 horas

david O brasileiro David Miranda, companheiro de Glenn Greenwald, foi detido e interrogado por 9 horas sem direito a advogado numa escala no aeroporto de Heathrow (Londres). Ele estava retornando ao Rio de Janeiro de uma viagem a Berlim, onde havia passado a última semana com a cineasta americana Laura Poitras, que trabalhou nas reportagens sobre a NSA.

O motivo de sua detenção foi a lei anti-terrorista aprovada pelo Reino Unido em 2000. De acordo com um documento publicado pelo governo do Reino Unido sobre tal lei, “menos de 3 pessoas a cada 10000 são examinadas quando elas passam pela fronteira” (David não estava entrando no Reino Unido, mas apenas em trânsito para o Rio). Além disso, “a maioria das verificações, mais de 97%, dura menos de uma hora” e um apêndice do documento afirma ainda que apenas 0,06% das pessoas detidas são mantidas por mais de 6 horas.

Como ressalta a nota do Itamaraty, “trata-se de medida injustificável por envolver indivíduo contra quem não pesam quaisquer acusações que possam legitimar o uso de referida legislação”. Com efeito, o caso entra para a extensa lista dos abusos cometidos em nome da “caça ao terrorismo”, mesma lista onde se encontra a espionagem da NSA sobre os cidadãos de todo o planeta publicada por Glenn no The Guardian.

David Miranda foi questionado sobre as reportagens que Glenn Greenwald e Laira Poitras estão escrevendo sobre a NSA e a agência britânica homóloga, a GCHQ. Antes de ser liberado, os oficiais britânicos apreenderam vários de seus bens, incluindo laptop, celular, vários consoles de videogame, DVDs, pendrives e outros materiais. Não disseram quando devolverão, nem se devolverão.

A tentativa de intimidação não funcionou. Pelo contrário. Como Glenn Greenwald afirmou em texto publicado no The Guardian, “cada vez que os governos dos Estados Unidos e do Reino Unido mostram sua verdadeira face ao mundo — como quando eles não permitem que o avião do presidente da Bolívia voe para seu país, quando ameaçam jornalistas com processos, quando têm comportamento como os que tiveram hoje — o que eles fazem é sublinhar por quê é tão perigoso permitir que eles exerçam em segredo o poder da espionagem massiva”.

Publicado originalmente no Juntos.

Como ler documentos do Scribd

Depois de ouvir esse improviso do André Mehmari sobre Odeon e Choro pro Zé, fiquei com vontade de encontrar a partitura desse belo choro do Guinga. Porém, descobri que infelizmente é extremamente difícil encontrar o songbook “A música de Guinga”.

Procurando na rede, encontrei um torrent com um PDF com qualidade ruim e um documento do Scribd com qualidade boa. O problema é que o Scribd tem um paywall para não deixar as pessoas baixarem ou lerem os documentos que seus usuários colocam lá:

free-preview

Percebi que ele passa todas as imagens corretamente para o navegador e só no lado do cliente muda a opacidade das páginas para elas ficarem semitransparentes. Então escrevi um userscript bem simples (usando jQuery por comodidade) para o Greasemonkey (uma dessas extensões indispensáveis do Firefox) para recuperar a opacidade das páginas do texto e, se necessário, remover essa mensagem “You’re reading a free preview”.

// ==UserScript==
// @name Suppress Scribd Paywall
// @include http://*.scribd.com/doc/*
// @require http://code.jquery.com/jquery-2.0.3.min.js
// ==/UserScript==
 
(function($) {
    $(document).ready(function() {
        window.setInterval(function(){$(".absimg").css("opacity", "1")}, 1000);
        $(".autogen_class_views_read_show_page_blur_promo").on("click", function(e) { $(this).hide(); });
    });
})(jQuery);

Para usar, é só instalar o Greasemonkey no Firefox e depois baixar o userscript scribd.user.js. Resultado:

choro-pro-ze

Snowden recebe asilo temporário na Rússia e deixa aeroporto

Edward Snowden acaba de obter asilo temporário na Rússia por um ano. O ex-agente da inteligência americana saiu da zona de trânsito internacional do aeroporto de Moscou por volta das 8:30 no horário de Brasília acompanhado de Sarah Harrison, assessora do WikiLeaks. Ele estava lá desde o dia 23 de junho, quando chegou de Hong Kong.

snowden Snowden revelou ao mundo detalhes de programas de inteligência dos EUA que monitoram atividades de telefonia e internet. Por conta disso, passou a ser perseguido pelos americanos, que cancelaram seu passaporte. Venezuela, Bolívia e Nicarágua ofereceram-lhe asilo, mas ele não obteve salvo-conduto para sobrevoar os países necessários para chegar à América Latina.

O advogado de Snowden, Anatoly Kucherena, disse que o paradeiro de Snowden será mantido em segredo por razões de segurança. Segundo ele, o ex-agente vai falar com a imprensa, mas precisa de um dia para se adaptar.

O Juntos esteve na linha de frente da mobilização pela liberdade de Snowden no Brasil. Em três semanas de mobilização constante – 5/7 no Itamaraty, 14/7 na Assembleia Nacional do Juntos e 18/7 no #SnowdenDay – mostramos que Snowden não está só. Agora vencemos uma batalha. Mas a guerra continua. Seguiremos construindo uma agenda de mobilizações pelo país, ampliando a rede dos que lutam por Assange, Manning e Snowden e por liberdade na internet.

Publicado originalmente no Juntos.