Parceria USP-Microsoft?

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 7 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

A notícia da visita de Steve Ballmer à USP me preocupou, em especial seu último parágrafo:

Para Massambani, a Microsoft pode acelerar os processos e alavancar os projetos já existentes no desenvolvimento de processos de criatividade na área digital, laboratório de criatividade e inovação. “A Microsoft pode ajudar a USP em projetos relacionados com infraestrutura, suporte, educação, sociocultural, servindo como popularização da ciência, inclusão social e digital. As duas podem cooperar para o desenvolvimento de pesquisas, capital intelectual e responsabilidade social”, considera.

A Microsoft tem esse costume (que o Sérgio Amadeu chama de “prática de traficante”) de oferecer a governos, universidades e mesmo a professores individualmente dinheiro, laboratórios, computadores e licenças do seu sistema operacional com esse discurso de inclusão digital e educação; criar dependentes.

Inclusão digital e social com um software que custa mais que o salário mínimo não é inclusão. Educação sem acesso ao código não é educação; é como ensinar a fórmula da soma de progressão aritmética sem permitir que o estudante saiba de onde ela vem ou criar cozinheiros ensinando a colocar lasanha da Sadia no micro-ondas. Popularização da ciência? Que ciência? A única popularização que vejo é da marca de uma empresa internacionalmente conhecida por sua política imperialista e por monopólio.

Desenvolvimento de pesquisa pra terceiros é capital intelectual desperdiçado. Por isso, essa parceria é o que eu chamo de irresponsabilidade social. É um erro uma universidade pública abrir as portas pra esse tipo de negócio que deseduca, desvirtua e vicia a sociedade.

Se a Microsoft quer tanto assim um mundo melhor e leva a sério seu próprio discurso de querer ver a população de São Paulo incluída digitalmente, sugiro que doe dinheiro aos telecentros paulistas sem esperar nada em troca.

Já tinha escrito um resumo disso no Twitter, mas achei conveniente repetir aqui.

3 comentários sobre “Parceria USP-Microsoft?

  1. Tiago, encontrei seu blog e li a parte técnica muito boa, mas ao tocar neste assunto de software livre x ‘império do mal’ você pisa na bola, como é tão comum com defensores apaixonados de uma causa aparentemente tão pura e perfeita.

    Se a universidade conseguir apoio oficial da Microsoft ajuda muito para conseguir a custo zero ou perto disso os tais softwares, que, segundo você já decidiu, ‘não servem para nada’.

    Tive a sorte de me formar em matemática computacional antes do ambiente acadêmico ficar poluído com essa guerra ideológica do software livre. E comprei meu computador do Paraguai, como era comum na minha época, antes desta palhaçada de ‘inclusão digital’ entrar na agenda de político socialista, como maneira de envolver os techies e nerds do software livre no bonde deles. Acho que misturar tecnologica com movimento político é uma péssima idéia.

    Se você for ver qual é o software que roda nas lans-houses do Brasil, o que você acha que vai ser? Vai ser um Windows pirata. Porque não usam software livre? Porque nem dando de graça esse produto vai passar de um percentual pequeno. Porque é difícil de usar sem ter caras como você arrumando cada probleminha que acontece.

    Na minha vida profissional uso matemática, programação. Podia estar cercado de software livre. Mas é muito mais produtivo eu usar Windows e outros softwares caros como MATLAB e Visual Studio do que ficar no Linux, Octave e gcc. Pagar não é problema, quando você usa a tecnologia para produzir algo, e não só pra brincar.

    1. Juliano,
      Linux é maioria nos servidores e em ambientes de produção e desenvolvimento. Se quer discutir nesse nível, seu uso de Windows é que é uma brincadeira perto dos lugares onde usam Linux.

      Software livre está crescendo não somente por causa da filosofia, mas porque temos softwares livres muito melhores que softwares proprietários. Além do sistema operacional, posso citar sendmail, gcc, Ruby, PHP, Python, Perl, LaTeX, por exemplo.

      Muitos já passaram de percentuais pequenos (veja estatísticas de uso de Apache), mesmo em usos em desktops (veja estatísticas de uso do Firefox e do Chromium, ou de clientes de bittorrent) e outros em desktop é questão de tempo (o crescimento do Linux com distribuições voltadas pra isso como o Ubuntu é notável, fora que o sistema operacional que é tendência nos celulares é o Android, baseado em Linux).

      Pra mim não se trata de uma disputa apenas política no sentido de ser apenas sobre demarcação de posição (embora eu assuma: tem sim fundo político e ideológico), mas em geral por mais qualidade na minha profissão: contra patentes de software, por conhecimento compartilhado, por algoritmos públicos, contra DRM, por padrões web e navegadores que sigam eles, por formatos abertos de vídeo e áudio, pela ciência. Mas gostaria de deixar claro que, além disso, eu uso Linux desde muito antes de conhecer esses motivos políticos, simplesmente por causa da sua qualidade mesmo.

      E não sou o único. Sem dúvidas a questão não é nem um pouco política (muito menos socialista) pra empresas gigantes como IBM, Sun, Google, Intel e Red Hat (sem contar a própria Microsoft!), que hoje investem pesado em software livre.

      Sinceramente sinto muito por você estar tão acostumado com Windows que gosta de trabalhar com ele, mas acho que sua questão é completamente pessoal (um mau gosto mesmo): pra mim, por exemplo, ele não é nem um pouco produtivo.

      E, meu caro, comparar um SDK pesadão e limitado como o Visual Studio com um compilador da qualidade e robustez do gcc, que é usado em diversas situações, com diferentes processadores, arquiteturas e otimizações, revela uma imensa falta de conhecimento.

  2. Parabéns Madeira! Vejo com outros olhos agora. A melhor parte foi “criar cozinheiros ensinando a colocar lasanha da Sadia no micro-ondas” huahauhauhauhuahuah… excelente!!!

    Mas eu continuo com uma sensação de utopia, entende?! Esse discurso todo é foda! Faz todo sentindo, não da pra esperar algo benevolente de uma empresa tipo Microsoft. Mas eu me pergunto, também,até quanto podemos contar com a USP.

    E tem a novela, complicadíssima que é, da relação publico/privado no brasil, em especial no estado de são paulo, que sempre envolve caixa 2 (para desinformados leia sobre Daniel Dantas (banquiero) no google ou o livro O Brasil Privatizado – Aloysio Biondi) em países de 1o. mundo, com orgãos regulamentadores, isso não acontece ou pelo menos são severamente punidos, como por exemplo a Telefônica espanhola que foi multada em não sei quantos milhões de euros e aqui em são paulo, ao invés disso, criamos um balcão só pra ela no PROCON. Fui longe com o assunto né?!

    Enfim… e fica a pergunta: O que é mais ingênuo: esperar “inclusão social e digital” de uma Microsoft ou esperar isso da USP, da Universidade pública em geral ou até dos que dela usufruíram?

    OBS: gcc V.S Visual Studio é tipo Scarlett Johansson V.S batoré.

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