Movimento Estudantil

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 7 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

“Eu não tenho nada a ver com isso,
Nem sequer nasci em Niterói.
Não me chamo João
E não tenho não
Qualquer vocação pra ser herói.”

De repente eu entrei pra uma chapa do DCE. “Quê?” Isso mesmo. Entrei pra uma chapa que vai disputar o Diretório Central dos Estudantes da USP em 2010.

“Mas… por quê?”

Em 2007 eu estudava numa escola de Itajaí. Minha namorada da época e meu irmão entraram numa chapa pro grêmio estudantil. Vou fazer uma revelação bombástica: não votei neles.

O motivo é simples: não acreditava que o Salesiano precisasse de um grêmio estudantil, aquilo mais parecia uma eleição por popularidade e de fato a chapa que venceu não fez absolutamente nada. Na verdade, mais parecia uma história de Malhação (aquele programa da Rede Globo).

Como gostava do meu irmão e da minha namorada não queria isso pra eles (responsabilidades, pseudopopularidade, reuniões inúteis e a participação numa espécie de movimento estudantil sem razão de existir). Felizmente eles não venceram.

Mudei muito de lá pra cá e, embora continue tendo certeza que o Salesiano não precisa de um movimento estudantil, descobri que há lugares que precisam.

“Mas… problemas da USP? Não é a melhor universidade da América Latina?”

Há vários, mas eis alguns que me preocupam: bolsas baixíssimas, processo seletivo estúpido privilegia quem tem acesso a cursinhos (todos aqui devem saber que tenho sérios problemas com Fuvest e Ensino Médio), condições muito ruins de ensino em vários lugares, parcerias privadas (universidade trabalhando pra empresas e não pro conhecimento e pro país), além dos problemas específicos dos institutos.

Há um problema que sintetiza todos eles: falta de democracia. Em tudo. Desde o próprio DCE até o conselho universitário e a magnífica reitora. Maio desse ano nos mostrou isso e o segundo semestre talvez tenha sido pior.

Sofremos neste segundo semestre um processo que chamam erroneamente de eleição (eu chamo de escolha) do novo reitor da USP. O processo inteiro é ridículo, com pouquíssima participação da comunidade acadêmica (no segundo turno apenas 0,3% da USP participa, em maioria os professores titulares) e ainda há o estopim: o governador é que escolhe o reitor a partir de uma lista tríplice e neste ano José Serra fez algo que tinha sido feito pela última vez por Maluf em 1981 (plena ditadura): não escolheu o primeiro colocado. Ou seja, nem a escolha daqueles poucos professores titulares foi respeitada. O escolhido foi João Grandino Rodas, apontado como o cara da linha dura desde antes desse processo de escolha do novo reitor começar (esta foto é de junho).

Um pequeno grupo de estudantes não tem como mudar alguma coisa dentro da universidade (alguém me apresenta algum resultado positivo da greve desse ano?). Democratizar o movimento estudantil pra democratizar a universidade: esse é o lema.

“Mas… você?”

A epígrafe desse post é de autoria do poeta Vinícius de Moraes e aqui há uma explicação do motivo de eu citá-la.

A Universidade de São Paulo vive um momento difícil, como expliquei anteriormente, e isso me força a agir; não só por mim, mas por todos e principalmente pela ideia de universidade que eu acredito. Numa reunião da chapa eu disse a todos os presentes (e repito aqui) que eu prefiro muito estudar matemática a participar de uma assembleia geral dos estudantes (que, sim, são eventos chatos e entediantes), porém acho que nesse momento eu preciso participar. Democratizar o movimento estudantil só é possível se gente “normal” participar (e isso é um convite pra você participar também).

“Mas… movimento estudantil é solução? Não é coisa de hippies e comunistas?”

Quem me conhece sabe que gosto de resolver problemas de matemática e quero usar isso pra melhorar o mundo, não a política. De fato o movimento estudantil é cheio de política e de partidos (eu nem entendo direito isso, mas de vez em quando descubro que estou dialogando com duas pessoas de grupos políticos diferentes que não se gostam muito), porém tem muita gente boa e é nelas que eu aposto nesse momento, já que não tenho ideia melhor.

Não mudei tanto assim. Não tenho ambições políticas, não me filiei nem me filiarei a um partido político, não sou hippie nem comunista. Porém, comunistas não comem criancinhas (pelo contrário, possuem ideias fantásticas) e conversar com eles tem sido um grande prazer para mim.

Entrei numa chapa do DCE justamente pra tentar quebrar esse preconceito de “movimento estudantil é lugar de hippies e nós, que estudamos, passamos o dia no IME sem se aproximar da FFLCH”.

Eu estou tentando ser um contra-exemplo. Sou um acadêmico e, por ser acadêmico, não existo sem universidade. Por isso faço questão de defender a universidade em que eu acredito. Não se engane, nem seja preconceituoso: nesse movimento tem muita gente boa.

“Mas… por que a chapa Para transformar o tédio em melodia?”

Veja também: Manifesto da Chapa e Twitter (@tedioemmelodia)

Conheci esse pessoal (grande parte do curso de Ciências Sociais da FFLCH) numa passeata de milhares por democracia na USP do MASP até o Largo São Francisco. Vestiam amarelo e seu protesto era bem-humorado e cheio de canções. Me interessei pela camiseta amarela e na semana seguinte fui a uma reunião deles no prédio de Ciências Sociais pra conhecê-los melhor.

Desde o início me trataram muito bem, deixaram eu falar e deixaram claro que o seu objetivo era um movimento estudantil com a participação de todos. Esse diálogo aberto me motivou a conversar mais com eles.

Eu e o Francisco (da matemática pura do IME) conversamos com eles de vez em quando desde lá e de uma de nossas reuniões lembro de uma fala interessante de uma garota: “Eu queria que todos participassem da assembleia geral. Que votassem todos a favor da PM no campus, mas que participassem. Não me importaria se minha ideia não fosse a da maioria da USP e aceitaria a ideia deles, mas gostaria que eles participassem.”

Foi esse pensamento que me levou a participar da chapa, essa abertura. A USP vive problemas e há nessa chapa pessoas dispostas a discutir com todos e mudar a cara do movimento estudantil pra um movimento que realmente representa os estudantes.

Realmente não sei se vai dar certo, mas acho divertido correr o risco de errar e acho que vai ser uma grande experiência.

“E agora?”

Como disse, não nasci pra ser político e por isso não tenho necessidade de mentir pra conseguir votos (acho até um pouco burro, já que ser eleito pro DCE vai apenas me dar trabalho e já estou cheio de coisas pra fazer). De fato não sei se a minha chapa é a melhor nem sei se daqui a um ano não estarei pensando outra coisa. Porém, acredito nessas pessoas que a compõem e [talvez eu esteja sendo ingenuamente manipulado, mas] acredito que podemos construir um movimento melhor e que isso é importante pra USP.

Então o que quero pedir é: se você é uspiano, vote. Leia os outros manifestos e decida a que achar que melhor representa você. Dê importância pro movimento estudantil da USP e acredite que ele pode ser melhor. Participe mais. Se minha chapa ganhar essa votação, cobre a sua participação no processo. O DCE serve para os estudantes participarem, dividirem seus problemas e buscarem soluções juntos como uma forte entidade e não estudantes sozinhos. O DCE tem obrigação de representar você.

Nada seria melhor pra acabar o post do que citar, d’Os Saltimbancos, Todos Juntos:

“Uma gata o que é que tem?
As unhas.
E a galinha o que é que tem?
O bico.
Dito assim parece até ridículo um bichinho se assanhar.

E o jumento o que é que tem?
As patas.
E o cachorro o que é que tem?
Os dentes.
Ponha tudo junto e de repente vamos ver no que é que dá.

Junte um bico com dez unhas,
Quatro patas, trinta dentes
E o valente dos valentes ainda vai te respeitar.

Todos juntos somos fortes,
Somos flecha e somos arco.
Todos nós no mesmo barco,
Não há nada pra temer.”

Essa utopia serve pro IME, pra USP, pra esse estado e pra esse país (estou otimista hoje).

while (você não estiver convencido) {
	use a caixa de comentários pra tentar me desconvencer
}

13 comentários sobre “Movimento Estudantil

  1. Oi Tiago Madeira,

    Fico muito contente por vc participar das discussões, e ter interesse na luta, e de participar cada vez mais delas.
    Quanto às eleições para o DCE, sabemos das dificuldades como tb das limitações do ME, mas é atuando, participando que fazemos o movimento acontecer e melhorar (e não ficando fora dele), e isso vale p/ todas as outras frentes de luta, mov. sindical, social, e até revolucionário.
    Nesse sentido parabenizo sua iniciativa, de sua participação numa chapa, etc. Não tem nada de errado em atuação política, nem se desculpe por isso, pelo contrário, o nosso grande problema é que (infelizmente) a maioria da juventude não quer saber de política, pois confundem com politicagem, mas é ao não se mexerem e atuarem é que ficamos na mão da politicagem.
    A tal neutralidade de muita gente, que diz não querer ou gostar de política, e que por isso não participa das discussões, dos movimentos, (pasmem!) nem se solidadarizam com os trabalhadores, com os pobres, com os estudantes, etc, é a pior forma de ajudar a direita, a burguesia, a classe dominante, os pelegos e burocratas, que continuam sossegados mandando e desmandando por todos os lados. Nós podemos não gostar das opiniões, do jeito, etc, de algum grupo politico, chapa, partido, pessoas, etc, mas não é afastados deles que conseguiremos fazer os embates, muito menos as coisas acontecerem do jeito que achamos correto. Temos que disputar as idéias sim, debater as posturas, as linhas politicas, os oportunismos, encaminharmos as tarefas, etc.
    Bom,
    boa campanha, boa luta (é dureza sim …e nunca foi diferente), nos encontraremos qq hora nos debates, e nas lutas, um grande abraço.
    Saudações classistas e socialistas.
    Até.

  2. A declaração mais sincera e estimulante que poderiamos ter neste ano de tantas dificuldades!

    O que nos movimenta é a crença na humanidade… bora transformar esta universidade!

    Democratizar o movimento estudantil, para democratizar a universidade!

  3. Thiago, você vai perceber que essa experiência vai valer muito a pena. Faço ela há 5 anos e admito que tem sido difícil, mas que sei todos os dias o quanto isso vale a pena porque éa justamente isso que me realiza, que me faz e fez decobrir novos caminhos com os quais me identifico.

    Não são apenas os cursos de exatas que costumam ficar fora do eixo politizado, os cursos de biológicas, extremamente técnicos também pouco dão espaço para refletirmos sobre nosso papel na sociedade. O mais importante é ter coragem, o receio sempre fará parte, mas é a coragem e a ousadia que nos faz caminhar.

    Ser politico é não ficar apático diante da realidade, é defender as causas que acreditamos.Não há nada de mal nisso, na verdade isso é construir a realidade ao invés de aceitá-la.

    Se precisar conversar com alguém, pode contar comigo.

    Pra terminar, poeticamente como escreveu vc ao longo de todo o texto, cito Eduardo Galeano:

    “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”

    Um grande beijo, Erika(Kinha) – da nutri!!!

  4. Olá, companheiro! (pode parecer um jargão, mas tod@s que não se calam diante das inúmeras injustiças e desigualdades pelas quais passamos e vivenciamos em diversas situações de nossas vidas, e as quais está submetida a maioria de nosso povo, certamente são companheiros)

    Vou me ater a uma questão que apontou: a possibilidade de sermos manipulados e que creio que seu próprio post a responde. Penso que é justamente nossa atuação sincera e honesta que permite cada vez mais encantarmos corações e mentes para uma construção que deve ser feita a muitãs mãos, vozes, cores e opiniões. E é essa disposição que demonstra para nós mesmos individualmente, mas também para os demais o que propomos. E você expõe muito bem no post! Essa é a atuação que impede que as pessoas sejam manipuladas e, mais do que isso, coloca a possibilidade de que sejam protagonistas na mudança de sua própria realidade.

    Fazer política é isso, e penso também que dificilmente você deixará de ser “um político”.

    Espero que assim como você se encantou, mais pessoas possam se encantar com a sua, a minha e a nossa atuação coletiva por uma universidade de fato pública, mas também por uma sociedade justa, igualitária, digna e fraterna.

    Pra terminar, cito Raulzito:

    “Um sonho que se sonha sozinho, é apenas um sonho que se sonha sozinho; mas um sonho que se sonha junto, é realidade”

    Persigamos nossos sonhos!

    abraços grandes,
    Vinagre! (das C. Sociais hehe)

  5. Obrigado pelos comentários, companheiros de chapa :)

    A verdade é que abusei da definição da palavra “política” no post, usando-a por extensão de sentido com conotação de politicagem, politicalha, politiquice ou politiquismo (via houaiss, lol).

    Concordo com tudo o que vocês disseram e acho importantíssima a política de facto. Sobre isto, recordo algo que marcou para mim o discurso da Profª Marilena Chauí na FFLCH em 16/junho deste ano, quando ela justificou que devemos ser políticos pois a única alternativa à política é a violência.

    Abraços,
    Tiago

  6. Caro Tiago,

    Sem dúvida, um post para emocionar todos que estão em nossa chapa. Tanto os organizados em partido, como eu, como os não organizados: sabemos, ambos, que não nos bastamos, que precisamos fazer um Movimento Estudantil amplo.

    Agora vencemos! Parabéns! A responsabilidade é gigantesca. As mudanças não aconteceu num estalar de dedos. Mas, ao menos, as primeiras notas de uma melodia iremos tocar. Na FFLCH, no IME, nos campi e cursos.
    Abração,
    Pedrinho.

  7. Participar desse tipo de movimento contribui para o aperfeiçoamente de todas os segmentos do campo estudantil frente ao Estado e a sociedade como um todo.
    É importante!
    É necessário!
    E isso você leva pela vida toda, como fonte de experiência, por lidar com pessoas e com situações de stress e luta por direitos e conquista por espaços.
    Felizes são as instituições que possuem pessoas que lutam por seus ideais e objetivos. Aqui em Brasília isso muito acontece, tanto na instiuição pública como nas privadas, dá orgulho de ver.

  8. As lutas estudantis são grandiosamente necessárias para que instituições de ensino busquem se aprimorar a cada vez mais. Talvez, seja válido verificar que quando alcançamos algo na vida acadêmica, muitas vezes é devido esforço arrebatador de DAs e DCEs. Boa sorte. Bem eu queria que todas a instituições de ensino superior tivessem a mesma estrutura que o IESB de Brasília tem.

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