Terrorismo Poético

ATENÇÃO: Este conteúdo foi publicado há 11 anos. Eu talvez nem concorde mais com ele. Se é um post sobre tecnologia, talvez não faça mais sentido. Mantenho neste blog o que escrevo desde os 14 anos por motivos históricos. Leia levando isso em conta.

Hakim Bey

Estranhas danças em saguões de bancos 24 horas. Espetáculos pirotécnicos não autorizados. “Land-art”, “earth-works” como bizarros artefatos alienígenas esparramados em parques do estado. Invada casas, mas ao invés de roubar deixe objetos Poético Terroristas. Seqüestre alguém e faça-o feliz.

Escolha alguém ao acaso e convença-o de que ele é o herdeiro de uma enorme, inútil e incrível fortuna – digamos 5000 milhas quadradas na Antártica, ou um velho elefante de circo, ou um orfanato em Bombay, ou uma coleção de ingredientes alquímicos. Mais tarde eles perceberão que por alguns poucos momentos acreditaram em algo extraordinário e talvez sejam levados, como resultado, a buscar algum modo de existência mais intenso.

Coloque placas de metal comemorativas em lugares (públicos ou privados) onde você experimentou uma revelação ou teve uma experiência sexual particularmente satisfatória, etc.

Fique nu por um sinal. Organize uma greve em sua escola ou local de trabalho tendo por base o fato de que ambos não satisfazem sua necessidade de indolência e beleza espiritual.

Grafitti-art emprestou alguma graça aos feios metrôs e aos rígidos monumentos públicos – arte-poético-terrorista também pode ser criada para locais públicos: poemas rabiscados em lavatórios de tribunal, pequenos fetiches abandonados em parques e restaurantes, xerox-art sob os limpadores de pára-brisa de carros estacionados, slogans em letras grandes colados em paredes de playgrounds, cartas anônimas enviadas a destinatários aleatórios ou escolhidos (fraude postal), transmissões de rádio piratas, cimento fresco…

A reação da audiência ou o choque estético produzido pelo Terrorismo Poético deve ser pelo menos tão forte quanto a emoção do terror – repugnância poderosa, excitação sexual, temor supersticioso, súbito arroubo intuitivo, angústia dadaesca – não importa se o Terrorismo Poético tem por alvo uma ou várias pessoas, não importa se ele é “assinado” ou anônimo: se ele não mudar a vida de alguém (além do artista), ele falha.

Terrorismo Poético é um ato em um Teatro da Crueldade que não tem palco, não tem fileiras de assentos, não tem bilhetes e não tem paredes. A fim de funcionar totalmente, o Terrorismo Poético deve estar categoricamente divorciado de todas as estruturas convencionais de consumo de arte (galerias, publicações, mídias). Até mesmo as táticas de guerrilha Situacionista de teatro de rua talvez estejam muito bem conhecidas e esperadas agora. Uma esquisita sedução conduzida não apenas pela causa da satisfação mútua, mas também como um ato consciente em uma vida deliberadamente bela – este o Terrorismo Poético último. O terrorista poético comporta-se como um trapaceiro cujo objetivo não é dinheiro, mas MUDANÇA.

Não faça Terrorismo Poético para outros artistas, faça-o para pessoas que não perceberão (pelo menos por alguns momentos) que o que você fez é arte. Evite categorias artísticas reconhecíveis, evite a política, não fique por perto para debater, não seja sentimental; seja rude, corra riscos, vandalize apenas o que deve ser desfigurado, faça algo de que as crianças se lembrarão por toda a vida – mas não seja espontâneo a não ser que a Musa do Terrorismo Poético tenha te possuído.

Vista-se. Deixe um nome falso. Seja legendário. O melhor Terrorismo Poético é contra a lei – mas não seja pego. Arte como crime; crime como arte.

(Hakim Bey)

4 comentários sobre “Terrorismo Poético

  1. Muito bacana este conceito, pena que no livro que contém este texto não há mais nada sobre TP, ele apenas insere outros conceitos (como Arte Sabotagem) e fala sobre pornografia, aborto, etc. Alguém sabe se Haking Bey escreveu algo mais sobre TP?

  2. He [Peter Lamborn Wilson] sometimes writes under the name Hakim Bey. The pseudonym may or may not have been a name-of-convenience or collective pseudonym used by other radical writers since the 1970s …
    Wikipedia

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